Nesta vida não tenho muitas conquistas materiais, porém as histórias são diversas. Quem eu seria sem minhas histórias? Não seria eu.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pode?!


O Mateus e a Amanda tinham acabado de comer. Cansados, depois de um longo expediente na segunda série e no jardim 2, eles foram assistir TV enquanto a mãe foi arrumar a bagunça.
Nada de muito diferente... um dia como qualquer outro... até que a mãe, a Tia Aline, ouve os gritos das crianças:

- Mãe!!!! Vem aqui!!!!!
- Não dá filhos, tenho coisas pra arrumar.
- Mãe!!!! Vem!!!!
- O que foi? Que gritaria é essa? - a comunicação era ainda à distância.
- O Felipe tá na TV.
- Que Felipe? - ainda de longe
- O Felipe, nosso primo.
- Não pode ser. O primo de vocês vive bem longe, não tem como ele aparecer na TV aqui em São José. - já na mesma sala onde estavam as crianças.
- Mas a gente viu ele sim! - confirmava a Amanda.
- É mãe, ele estava andando de bicicleta! - disse o Mateus.
- Tá bem... ele estava na TV sim. - e sem vontade de continuar a discussão foi terminar com a cozinha.

Algum tempo depois, toca um telefone:

- Oi Aline, tudo bem?
- Oi Bete, tudo bem. Sabe, as crianças tão cismadas que viram o Felipe na TV. Pode isso?

Será que pode?
http://www.vnews.com.br/terravidaoumortenoticia.php?id=39577

domingo, 26 de outubro de 2008

Ainda não foi desta vez...


* Parece que ando escrevendo bem... tanto que um amigo me pediu pra escrever um texto pro blog dele. Há textos bastante bacanas por lá, um deles é o que segue abaixo.
Quando vivia em São Paulo ele era uma compania distante, mas era importante... pra chegar até ele eram cerca de 30 minutos, sem trânsito. A partir daí a viagem era quase sempre rápida e confortável.

Em Amsterdam ele fica a poucos minutos de casa, de bicicleta. Com ele poderia ir ao trabalho, levando inclusive a magrela, e pra vários outros pontos da cidade. Eu nunca ouvi dizer que o daqui é o melhor do mundo, mais limpo, mais bonito, ou mais bem cuidado. Mas funciona muito bem, e está em plena expansão. Mesmo assim, se ele não estivesse por aqui não sentiria muita falta... pois eu vou mesmo é pedalando.

Em São Paulo, quando voltava lá das bandas do Jacanã, naquele último trem que eu não poderia perder, pois chegaria em casa "só amanha de manhã", eu ia quase dormindo. Trem vazio. Cabeça encostada na janela e pés esticados sobre o banco da frente. Numa destas entra um policial e gentimente pede pra que eu me sentasse direito.

Semana passada tive que pegar o metrô, numa rara oportunidade. Vagão vazio, era bem cedo. A cabeça encostava na janela. Entram três policiais.

- O senhor tem autorização da empresa pra colocar os pés sobre o banco?
- Não entendi - retirando prontamente o fone de ouvido do tocador de MP3.
- O senhor tem autorização da empresa pra colocar os pés sobre o banco?
- Não senhor.
- Posso ver seu documento de identidade?
- Um momento...

O policial recebe o RG, retira um bloco do bolso e começa a anotar algumas coisas.

- Seu endereço por favor?

O endereço é anotado no mesmo bloco, e logo depois o RG é devolvido.

Quando eu imaginava que aquilo já havia terminado, eis que vem uma nova pergunta:

- Qual foi o motivo?
- O que?
- Por qual motivo o senhor estava viajando com os pés sobre o banco? - Eu quis rir
- Mmm... Porque é mais gostoso sentar assim
- Foi por conforto então?!
- Isso - o motivo foi anotado também no mesmo bloco.

O policial deu bom dia e foi, com seus colegas, pro outro lado do vagão.

Em São Paulo, eu nunca deixei de colocar meus pés no banco da frente por causa daquele encontro com o policial. Não me lembro direito, mas imagino que logo depois que ele saiu voltei a me esticar.

Por aqui, por mais vazio que o metrô estiver, a partir de agora, meu pés ficarão mesmo é no chão. Afinal acho que 35 euros de multa por viajar com os pés sobre o banco devem doer no fundo da alma. Ainda não foi desta vez, felizmente o transgressor não era eu, ele estava sentado a alguns metros de mim. Eu, curioso, apenas ouvia o desenrolar daquele "crime".
A cabeça voltou a se encostar na janela...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Casa da Pasta

Outro dia, depois de muito tempo, troquei umas palavras com a Joana, umas das habitantes da inesquecível Casa da Pasta.
Fazia muito tempo também que não conversava com algum deles... eram 8 seus reais habitantes, mais eu e a Manu, moradores adotivos.
Além de mim, da Joana, portuguesa e da Manu, italiana, viveram lá a Kika, alemã, a Clare, escocesa, mais a Michela, o Stefano, o Marco, o Paulo e a Melania, todos italianos.

No início, eu , na busca por conhecer pessoas novas, ia sempre jantar no restaurante central da universidade do Porto, lá comiam muitos estudantes recém chegados à cidade como eu. Na volta, quase sempre passava pela Casa da Pasta, que ficava no meio de caminho pra minha. Muitas vezes, ia dormir com uma segunda janta em meu estômago.
Com a passar do tempo eu não chegava mais ao restaurante central, a Casa da Pasta era meu destino quase certo, isso quando ela não era apenas passagem para outro ponto final.
Depois de não aguentar mais a intrometida Dona Florisbela, proprietária da casa onde aluguei um quarto por cerca de 3 meses, a Casa da Pasta foi refúgio. Lá fiquei um mês antes de conseguir encontrar um outro quarto com um preço que eu poderia pagar. Foi, inclusive, graças a Dona Florisbela que os conheci. Quando cheguei pra me acomodar em um de seus quartos, alguns de meus futuros amigos estavam na sala, estudando português, com alemão e um espanhol que também vieram a ser vítimas da portuguesa. Acabei virando um bom professor.
Foi durante meus dias na Casa da Pasta que vi meus amigos partirem pro Natal, numa das experiências mais tristes daquele ano. Que foi por sinal a grande responsável pela viagem mais incrível que já fiz.

Quase no mesmo dia que falei com a Joana fui jantar com a Susanne num restaurante aqui perto de casa. Um pouco antes da comida chegar ouço uma música começar...

"Voi gente per bene che pace cercate, la pace per fare quello che voi volete, ma se questo è il prezzo vogliamo la guerra, vogliamo vedervi finire sottoterra. Ma se questo è il prezzo lo abbiamo pagato, nessuno più al mondo dev'essere sfruttato. heh!!"

Alguns instantes mais tarde a Casa da Pasta pulsava mais forte em minha mente... não havia quem ficasse parado ao som da Contessa. Poucas não foram as vezes que uma grande festa não foi animada, ainda mais, pelos Modena City Ramblers. Algumas de minhas melhores festas foram lá.
Eu, como todos os outros não italianos, não entendia quase nada do que era cantado. Mas sempre percebi o lado revolucionário daquela música. Talvez tão revolucionário como foi aquele ano pra mim. Ano vivido com extrema intensidade... As pessoas que estiveram por lá comigo sabem do que falo. Felizmente convivo todos os dias com alguém que também fez parte daquilo. Que me ajuda a não esquecer das coisas. Em Albergue Espanhol é possível de se entender um pouco de meus sentimentos, além de se ter uma bela idéia do que a Casa da Pasta significa.



O que mais me espantou depois de ouvir aquela música não foi a explosão de sentimentos que ela causou em mim, ou o fato dela me levar à minha querida Casa da Pasta. Mas sim o tempo que levou pra eu a reconhecer. Foi de certo modo um choque me realisar que muitas coisas de um passado nem tanto distante pareciam já estar perdidas. Acho que estou mergulhando muito fundo no presente.
Com certeza tenho que continuar vivendo o presente, mas de hoje em diante vou brigar ainda mais pra não esquecer o passado... tenho que procurar meus "velhos" amigos.
Clare, Kika, Joana, Manu, Marco, Melania, Michela, Paulo e Stefano, tenho saudades...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Viva a desobediência - II




Saiu no "Parool", jornal de circulação municipal aqui de Amsterdam um dia depois da nossa primeira partida do campeonato, na seção de Futebol Amador. Amanha vamos pro nosso quarto jogo.
Este ano eu me considero um pouco mais desobediente...


A gastronomic story


Segunda feira, perto da 8 da noite. Sempre pedalando do trabalho pra mais um treino com meu time de futebol.

Eu vou sempre direto do trabalho pro treino. Na segunda, quase sempre sem muita vontade. As pernas estão ainda meio pesadas do jogo do sábado, dores musculares ainda presentes, isso quando não há algo mais doendo. Depois, só chego em casa bem tarde, passando das 11 da noite.
Na segunda eu saio do trabalho umas 7h, como num restaurante indonesiano e pedalo pro clube. Vou sempre devagar, fazendo a digestão... com aquela moleza que dá quando estamos de barriga cheia.

Amsterdam nesta hora é uma loucura, todo mundo saindo do trabalho, quase todo mundo com pressa... mas eu, na segunda, vou sempre devagar. Desta vez, no meio do caminho cruzo em poster colado numa parede. "Estômago" estava escrito nele. Mas o que me chamou atenção foi o aquele garfo de filme de terror. Continuei meu caminho, aproveitando do que restava de minha tranquilidade antes da correria do treino começar.


Na quarta pedalo sempre mais depressa. Saio do trabalho as 6:15h. Tenho pouco tempo pra comer e estar em campo as 7h. Faço o mesmo caminho mais ligado. Chego pra treinar até com mais vontade! De comer pouco pra não ficar de barriga cheia, as vezes treino até com um pouco de fome.
Nesta quarta, cruzo mais uma vez o tal garfo. "Caramba! Estômago é português!" Mesmo com o tempo apertado paro pra ver o cartaz:
- Vencedor de vários prêmios, inclusive no festival de cinema de Rotterdam.
- Atores pra mim desconhecidos, a excessão do Paulo Miklos que faz uma participação especial.
- Em cartaz desde 4 de setembro em algumas salas de Amsterdam.


Sexta feira, 9:45 da noite, estávamos eu e a Susanne numa sala de um cinema por aqui. Foi muito bacana! Nós dois gostamos muito.

Só ainda não entendi a diferença do cartaz brasileiro pro internacional... mas bem, felizmente, ele chamou a minha atenção. "Estômago - A gastronomic story" sugiro!

14 de setembro

Era meia noite, me levaram pro jardim... começou um "parabéns"!
O Nelson não conseguiu sair a tempo, era felicitado por quase todo mundo.

A festa não era minha, mas passando da meia noite o dia era meu, ganhei um "parabéns" e arranquei muitos abraços.

E o Nelson continuava lá dentro, recebendo as saudações...

Meu primeiro aniversário aqui na Holanda não foi o meu, foi do Dirk, irmão da Susanne. A reunião de família corria gostosa... vou a cozinha pegar algo pra beber quando entra uma tia, que ainda não conhecia, mas que sabia ser um pouco distante da família. A mulher me deu um aperto de mão, 3 beijinhos no rosto e disse: "meus parabéns!!!"
Agradeci meio perplexo... logo depois ao encontrar a Susanne eu disse:
- Su, eu sabia que sua tia era distante, mas não imaginava ser tanto assim. Você não vai acreditar... ela me confundiu com seu irmão!!!!
Virei motivo de piada... pela mesma razão que o Nelson ficou encurralado pelos cumprimentos, que o fizeram perder meu espontâneo "parabéns", a tia da Susanne me felicitou. Na Holanda a família toda é cumprimentada.

Bem, meu dia tinha começado bem gostoso, numa festa de família que não era minha mas que acabou virando um pouquinho. E eu ainda tinha família do Brasil comigo. O Nelson estava por aqui naquele final de semana.
Todos dizem que sou muito bem adaptado por aqui, que sou exemplo de integração. Acho que dizem isso pois, muitas vezes ao ter dificuldade em aceitar certas coisas, acabo apenas disfarçando bem. Mas há ocasiões nas quais prefiro não disfarçar, faço questão de mostrar minhas diferenças.
Por exemplo, é difícil aceitar que o abraço quase nunca faz parte dos cumprimentos de um aniversariante. Por isso, passou perto de mim no dia 14 de setembro e falou feliz aniversário, eu já pego logo pelo pescoço!
Eu não queria também organizar uma festa, botar na agenda, com hora pra começar e pra terminar... só queria ter um dia bacana, acompanhado de pessoas que queriam estar comigo, como sempre foi em meus aniversários no Brasil.
Assim, nada foi organizado, fomos pra casa dos pais da Susanne... foi muito bom, até o verão, em seus últimos suspiros veio me brindar com um domingo de Sol.
Quem quis, e pôde, veio. O dia começou com um belo café da manhã, depois fomos levar o Nelson pra passear pela região, compramos farinha em um moinho de vento, pra que bolos fossem feitos no Brasil, e tivemos ainda um churrasquinho...
A noite, ao voltar pra casa, acontece daquelas coisas que fazem qualquer dia ser fechado com chave de ouro: ouvi, num encontro virtual com 11 pessoas da minha família, através de 5 diferentes computadores, em 3 três diferentes países, em português, meu último "parabéns" das comemorações de meus vigésimo nono aniversário.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Engrandecendo meu CV - Parte II



Há algum tempo falei aqui sobre meu currículo paralelo. Naquela ocasião, estas minhas atividades alternativas, digo, sem qualquer relação com minha carreira profissional, ainda eram de extrema importância, pois devido as minhas idas e vindas, sempre precisava de fontes alternativas de dinheiro.
Segue abaixo a penúltima atualização deste meu CV:

- Vigia de piscina de hotel (Portugal);
- Cobrador de banheiro (Holanda);
- Faxineiro de banheiro (Holanda);
- Professor de Português (Holanda);
- Pendurador de casacos em boate (Holanda);
- Diarista (Holanda) e
- Cobaia profissional de estudos acadêmicos (Holanda).

Hoje em dia, uma fonte alternativa de dinheiro é ainda sempre bem vinda, porém, não mais necessária. Mas isto não é impedimento algum para que eu continue a engrandecer meu currículo paralelo, afinal, mesmo tendo ganhado um bom trocado com algumas delas, o que fica de verdade são as histórias...

Pois bem, nestes dias que se passaram fui contratado, na base da amizade, por uma jornalista brasileira, para guiar uma equipe de reportagem que está trabalhando na elaboração de uma reportagem (talvez documentário) sobre o aquecimento global.

Minhas obrigações foram:

- Encontrar a equipe no aeroporto e guiá-los ao hotel;
- Apresentar Amstedam a novos e velhos visitantes;
- Escolher bons lugares pra jantar e
- Guiar a equipe até os locais de filmagem e pesquisa (a Susanne me cobriu quando não pude me ausentar de meu trabalho).

Não posso dizer que tenha sido mais difícil guiar esta equipe do que guiar amigos de passagem por Amsterdam, porém, tive que ter mais responsabilidade ao selecionar as histórias que conto. Afinal qualquer meia verdade poderia comprometer o trabalho de gente muito séria. Por isso só contava os "causos" nos quais estava 100% convicto da verdade.
Foram dias puxados... nos quais dormi menos que o normal. Mas foram dias muito bacanas.
Primeiro porque, pela primeira vez as histórias que contei e as coisas que mostrei não farão parte "apenas" das lembranças e álbuns fotográficos de algum amigo. Pela primeira vez contribuí pra algo ainda maior. Quando a reportagem (ou talvez o documentário) ficar pronta saberei que há ali uma pequena contribuição minha.
E segundo pois, baboseiras de atividade profissional a parte, recebi aqui, além da jornalista, uma grande e velha amiga.
Por acaso, a Nádia foi das primeiras pessoas a me visitar na Holanda. Quando ela esteve aqui da primeira vez, junto com o Diego, eu ainda não conhecia quase nada, me perdia com eles o tempo todo por Amsterdam. Pude descobrir junto com eles alguns pedaços desta cidade. Hoje, já quase não me perco mais, sei muito bem onde ir e o que quero mostrar... desta vez, foi como mostrar a minha própria casa.
É difícil prometer, mas farei de tudo pra estar em São José no próximo dia 19 de abril.

Voltando às baboseiras... meu CV não parou por aí. Além de incluir naquela lista: "Guia de equipe de reportagem", minha experiência em outro ramo profissional vem aumentando de vento em polpa.
A Susanne está, desde fevereiro último, estudando fotografia. O objetivo dela é virar fotógrafa profissional e para isso, durante o curso, que dura 3 anos, ela tem que fazer muitos ensaios, com diferentes temas e objetivos. Não dá pra ser um bom namorado sem dar uma grande força pra ela. E dar uma força significa, entre outras coisas, estar de frente pra câmera, ser fotografado. Virei modelo.
Na primeira vez foi meio estranho. Depois fui me acostumando e hoje até me divirto. Pro último ensaio no qual fui modelo, tive que ficar por mais de 3 horas em frente da câmera... e deste tempo todo, só por uns 10 minutos eu tinha alguma roupa. Virei modelo nu!
Os ensaios são sempre discutidos por toda a classe... Há algumas semanas conheci uma colega de classe da Susanne. Depois de me apresentar eu ouvi: "Legal de conhecer! Já tinha te visto em fotos." haha

Pra quem duvida de meu potencial como modelo, ou pra quem quer conferir o potencial da Susanne como fotógrafa... vai aí uma pequena mostra: haha




quarta-feira, 30 de julho de 2008

É proíbido fumar!



Imaginem a situação... um cara meio resfriado, vias aéreas debilitadas, devido a chuva que ele tomou no dia anterior enquanto pedalava por seu mais novo destino turístico. Ele entra num bar, vê várias pessoas fumando e uma fumaceira que se espalha por todos os cantos do ambiente.

O cara pensa: "Estou em casa". Sem pestanejar saca o maço de cigarros do bolso e vai logo dando suas tragadas.

Porém, sem demorar muito é abordado por um dos garçons:

- Senhor, seria possível apagar o seu cigarro?
- Como?!
- Seria possível apagar o seu cigarro?
- Por que?
- O senhor não sabe que é proibido fumar em estabelecimentos comerciais na Holanda?
- Tava imaginando que sim, após passar por vários bares nesta cidade e ver aqueles adesivinhos de proibido fumar. Porém, encontrei este "santo local" com várias pessoas baforando. Aí imaginei que em alguns lugares era permitido e noutros não. Mas enquanto estava aqui, feliz da vida, ouço do senhor que não posso fumar. Não tô entendendo nada! -Diz ele enquanto olha pros lados e vê aquela névoa densa que quase o impede de ver o outro lado do lugar. Ele insiste em fumar.
- Eu não vou apagar meu cigarro! Por que eu? Será que tem há ver com o fato de ser estrangeiro?!
- Não senhor, somos frequentados na maioria das vezes por estrangeiros.
- Me desculpe, percebo que o senhor está pedindo com educação, mas tenho que dizer que me sinto afrontado com seu pedido.
- Não é minha intenção afrontar o senhor.
- Por que raios então o senhor pede pra eu apagar o cigarro enquanto todo mundo ao meu redor continua de cigarro aceso na mão?
- É que a partir de primeiro de julho há uma lei que proíbe o fumo em todos os estabelecimentos comerciais.
- Hahahaha... mais uma vez, por que eu e não eles? Agora só de relance conto umas 20 pessoas com cigarro acedo!
- O senhor tem razão, mas no cigarro deles não há fumo.
- Como é que é?!
- Pois é, não há fumo no cigarro deles, e sim maconha. Fumo é contra a lei, maconha não!
- Posso colocar uma pouco de maconha aqui e continuar fumando, precido da nicotina do tabaco pra acabar com a minha pilha. Fumar lá fora é cruel! A chuva que começou ontem não parou até agora. Estou todo resfriado por causa dela.
- Sinto muito, maconha só purinha, se nela houver um pouquinho fumo estaremos infringindo a lei...

Pois é, pode parecer loucura, mas a partir de primeiro de julho isso pode acontecer por aqui sim.
Finalmente, depois de muito tempo de atraso com relação a outros países por aí, o fumo em bares, restaurantes e discotecas foi proibido na Holanda. Sair a noite ficou mais gostoso, mais saudável, pelo menos pra quem só passa na frente dos Coffeshops. Mas antes de imaginar que a continuação da liberação do consumo de maconha, e outras drogas chamadas leves, nos Choffeshops tem algo a ver com liberdade, mente progressista, estas coisas... este fato está mesmo é relacionado a questões econômicas.

É interessante pra Holanda tentar estimular o menor consumo de cigarros. Questão de saúde pública: menos dinheiro aplicado na saúde pra tratar dos efeitos do cigarro. Mas não seria interessante pra Holanda atrapalhar uma de suas mais importantes fontes de renda: o Turismo. Milhares de turistas desembarcam por aqui, todos os dias, afim de se amontoar nos Coffeshops e se entupir de suas mercadorias. Detalhe... café mesmo, só é encontrado por lá no nome!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Pela primeira vez um tio


Eu já o conheço há muito tempo... jogávamos bola juntos e íamos à mesma colônia de férias quando crianças. O clube da Petrobrás era onde tudo acontecia.

Na faculdade foi meu bixo. Por lá ele passou a ser Terra. Com ele e meu irmão, demos vida aos Tropeiros. Casa bacana e feliz que abrigava gente do Vale do Paraíba naquela loucura de São Paulo. Na faculdade ele virou amigo de verdade.

O cara escolheu uma vida como a minha... enquanto eu respirava ares portugueses ele batalhava na chuva londrina. Quando eu encontrei minha holandesa ele se achou com uma da Irlanda.

Depois de mais de anos nos vimos de novo... da ultima vez ele era apenas meu amigo Janio. E hoje meu amigo é Pai, de duas crianças lindas.

Foi um final de semana como nenhum outro. Foi pela primeira vez que eu me senti um tio...

Lembranças a Janio, Liz, Anabel e Rafael...

Pra ver algumas fotos do final de semana é só conferir aqui

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Antes só


Outro dia estava no trabalho quando toca meu telefone. Não podia atender. Algum tempo depois ouço a caixa postal:

- Senhor Felipe, falo da prefeitura de Amsterdam e o senhor Flávio precisa entrar em contato com o senhor. Por favor retorne esta ligação.

Sem qualquer sobre de dúvidas retornei.

- Me desculpe senhor, mas apenas com o primeiro nome não podemos identificar a pessoa. O senhor não sabe o sobrenome deste Flávio?

Eu não sabia. Nem tentei forçar a barra, todos aqui são encontrados pelo sobrenome, ou data de nascimento. Não haveria jeitinho que eu pudesse dar pra poder contactar o tal Flávio. E eu conheço alguns Flávios. Fiquei meio angustiado, de certa maneira torcendo pra que no dia seguinte alguém da prefeitura me voltasse a ligar.

Quase 11h da noite, toca o telefone.

- Fala Felipe, aqui é o Flávio, tudo bem?
- Tudo.
- Então, tô precisando de um lugar pra morar, você conhece alguém que pode dividir o apartamento comigo? Eu tô no hotel “qualquer coisa”, mas aqui é caro e não dá pra ficar muito tempo, por isso quero que você me ajude a encontrar um lugar pra morar.
- Espere aí... quem é você?
- Sou Flávio, de João Pessoa. Cheguei aqui em Amsterdam ontem a noite. Vou viver aqui. Por isso você tem que me ajudar a encontrar um lugar pra morar. Você não quer vir me encontrar agora? A gente poderia conversar um pouco. Quero que você me diga como você tirou seu visto.


- Desculpe... mas como você conseguiu meu telefone?


Puta longa história, mas pra resumir: muitas pessoas, a começar pela pessoa da prefeitura, tentaram informar pro cidadão, que não falava nada de inglês, muito menos de holandês, que ele poderia permanecer por aqui por 3 meses como TURISTA e depois ele teria que ir embora. Ser TURISTA significa passear, conhecer, gastar dinheiro e embarcar de volta! A idéia de virar estudante e tirar visto não existe por aqui. Mas a chatice e a inconveniência do cidadão fizeram com que alguém, depois de muitos alguéns, desse meu telefone pra ele, pois este alguém sabia que eu poderia explicar pro cidadão que os planos deles não eram para nada reais. Depois de ouvir toda a historia, sobre como ele chegou até mim, ainda ouço mais uma vez:


- Você não pode vir me encontrar, aqui no meu hotel?


- Flávio, são quase 11 da noite. Eu não vou sair pra te encontrar.
- E amanha?
- Eu trabalho.
- Eu vou ao seu trabalho.
- Você não vai ao meu trabalho.
- Na hora do almoço.
- Não!
- Mas você tem que me ajudar a conseguir o visto, como você conseguiu o seu? Vou estudar holandês pra tirar um visto de estudante, mas pra isso eu tenho que arrumar um lugar pra morar, aqui é muito caro...

A conversa ainda não terminou aqui... foi difícil convencer a figura que não haveria maneira dele conseguir um visto, que o jeitinho que ele estava procurando não existe por aqui. Também foi complicado dele entender que eu, mesmo me considerando uma boa pessoa, não costumo ajudar pessoas como ele, que acham que tudo se resolve, que acham que podem importunar uma cidade inteira e ainda me ligar as 11 da noite como se fossemos amigos de infância.

As vezes ainda me perguntam por que eu não quero contato com todo brasileiro que vejo por aqui, prefiro andar só a me aproximar de figuras como esta.

Com os pés na areia


Ontem eu teria uma surpresa... desde a semana passada que a Susanne tinha me pedido pra deixar a noite de quarta livre. Minha curiosidade é monstruosa. Foram muitas tentativas de arrancar dela qual seria o plano.
Por volta das oito saímos de casa. Noite (ainda tarde) bem gostosa. No meio do caminho, nos sentamos a beira de um canal pra tomar um grande copo de sorvete. Um sorteve da “Kibon”, em que até dois sabores são batidos com frutas a escolha (morango, cereja, kiwi...) e outras coisas (granola, chocolate, castanha de caju...). Só por este sorvete a beira de um canal nosso programa já havia valido a pena. Ele é um dos maiores concorrentes de meu preferido, mas inexistente por aqui, Milkshake de Ovomaltine do Bob’s.
Terminado o sorvete, caminhamos por mais alguns canais até chegar a uma pequena rua, com um cinema e um bar/balada bem conhecidos. A rua cheia, muitas camisas do Brasil, vestidas por brasileiros e holandeses. Seria alguma mostra de cinema brasileiro, ou uma balada brasileira? Cinema não era... todo mundo ia pro bar/balada. Balada não poderia ser, ainda era meio cedo pra isso.
Já saí muito, mas hoje não sinto falta. Mas não imaginava que iria desfrutar tanto daquela noite.
Este bar/balada não é muito grande e apesar de cheio não estava lotado. Havia muitos brasileiros, algumas caras conhecidas, mas nenhum amigo. A maioria era holandesa. Era mesmo uma balada.
Da última vez, tive que ir bem longe pra cair na noite, foi durante minhas 18 horas em Madrid. Desta vez foi a balada que me levou pra bem longe... cheguei a pisar na areia, dançando numa praia qualquer.
Hoje mesmo, um dia depois, voltei a viajar. Era só pensar no show que estava novamente por aí.
Foi a terceira vez que os vi tocando... todas as vezes me diverti bastante, espero vê-los pelo menos por mais uma vez, mas esta terá que ser numa terça e no Pelourinho.
O Olodum foi rico. O Oludum foi pobre. O Oludum foi regae e o Olodum foi rocky... o Olodum me levou de vez...
E isso foi tudo uma surpresa!

sábado, 19 de julho de 2008

Na Terra dos Trolls


Quando eu ouvia falar da Noruega eu só conseguia pensar em duas coisas: Vikings e frio
Não foi a minha primeira passagem por lá, mas desta vez vi mais, senti mais, pude enfim conhecer melhor o país, numa época na qual ele não está coberto de branco e a noite não existe.
Aproveitando que meus pais estavam por estes lados fomos todos visitar o Daniel. Ficamos 10 dias, dos quais 5 viajando e 5 onde o meu irmão mora, e onde já estive, Trondheim.
Chegando por lá já pude encontrar uma cidade completamente diferente da visitada meses atrás. Temperatura uns 30 graus mais elevada e ruas lotadas. A neve encanta, mais também esconde. As vezes me sentia num outro lugar.
Como foi engraçado ter este encontro familiar por àquelas bandas... se alguém algum dia imaginou que minha família pudesse cair no mundo, não acredito que este alguém chegou assim tão longe a ponto de nos ver na escandinávia. E detalhe, procurando uma sombrinha, devido ao calor.
Viajar é sempre muito bom, nos mostra coisas novas, quebra paradigmas (na Noruega até o leite vendido no supermercado é estatal, afinal, que outro tipo de empresa pensaria em pagar um preço justo pra manter o nível de vida dos pequenos fazendeiros... enfim, uma visita a escandinávia poderia ser bem positiva pra uns bicudos que conheço). Estes 10 dias me fizeram voltar pra casa completamente enlouquecido com a paisagem natural vista por lá. A Terra dos Vikings, onde os Vikings parecem ter dado lugar ao Trolls (pelo menos por onde passamos), nunca esteve em minha lista de principais destinos, mas hoje é um dos “tops” de meus lugares visitados.
Demos um rolê bacana por lá, por estradas pequeninas que fazem lembrar muito bem o trecho de serra da Osvaldo Cruz (Taubaté-Ubatuba). Viajar por lá não condiz com estar com pressa. Além das seguidas curvas em 180 graus as inúmeras balsas fazem com que a gente chegue ao nosso destino bem devagar, com tempo suficiente pra aproveitar a viagem.
Nós descemos a partir de Trondheim sentido sudeste... nesta direção, as montanhas arredondadas, que se parecem com as das nossas Minas, vão ficando cada vez mais altas e pontudas. Por serem altas,mesmo no verão seus cumes continuam nevados. Porém derretendo. A água escorre por todos os lados e, muitas vezes, direto pros fiordes em cachoeiras gigantescas. Perdi a conta das cachoeiras da fumaça ou dos véus de noiva de centenas de metros vistos por lá. Quando a água não consegue escorrer, fica represada no alto das montanhas em lagos de água bem azul, que parecem nos ficar convidado pra um banhinho.

A paisagem deste pedaço da Noruega que visitamos é surreal. Esta mistura de montanha, neve, cachoeiras, lagos e mar é uma coisa rara... e por isso, se algum dia alguém quiser um conselho meu quando estiver vindo pra estes lados direi: vá a Terra dos Vikings, pegue a Estrada do Trolls e chegue até Geiranger. Inesquecível!


PS: detalhe, o calor norueguês era tamanho que as águas cristalinas dos fiordes conseguiram convencer mais da metade da família a se aventurar. Tudo doeu... mas valeu o banho nas águas de Janaína.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Pai e Mãe




Minha casa nunca foi tão grande... minha casa é pequenina, de um tamanho perfeito pra duas pessoas começarem a vida. Minha casa ficou gigante, ela cresceu pra acomodar aqui meu pai e minha mãe. Passamos um mês delicioso. Rapidinho, passei a ter a sensação que meus pais pertenciam ao meu cotidiano. Era muito normal tê-los por aqui, parecia que sempre foi assim... era uma normalidade perfeita.
Viajamos pra ver meu irmão. Família Mota reunida na Noruega... coisa inimaginável a tempos atrás... coisa real hoje em dia... coisa inesquecível viajar por meio de fiordes, montanhas e cachoeiras, nesta incrível Noruega, num carro cheio de gente de família.
Receber visitas por aqui sempre é muito bom. Espero continuar a recebê-las por muito tempo. Já tinha recebido todo o tipo de gente: amigos das antigas meio distantes nos últimos tempos; amigos dos amigos; ex- cunhada; novos amigos; amigos das antigas que continuam amigos e família. Mas pai e mãe é diferente. Esta passagem deles juntos por aqui era das coisas que eu mais desejava desde de minha vinda. Finalmente eles vieram e conferiram juntos como andam as coisas. Felizmente eles não "me viram chorando e nem vão precisar mentir, 'pros da pesada', que eu vou levando..."
Hoje meus pais já foram embora, estão novamente onde eles pertencem... minha casa continua grande, mas agora de uma maneira diferente.
É um grande mais vazio... mais vazio de gente, mas cheio de lembranças.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Central Station"


Eu viajava de volta pra Amsterdam... ia chegar por lá e aproveitar uma tarde longa de primavera fazendo um piquenique com a Susanne no Westerpark.
Eu tinha almoçado com um amigo e a volta pra Amsterdam duraria cerca de uma hora e meia... viagem longa por aqui.
Com mais cerca de meia hora pra chegar, sentam-se duas holandesas ao meu lado. Eu que já estava longe, olhando perdido pela janela, ao perceber que aquelas duas no auge de seus 18 ou 20 anos não ficariam um segundo sem abrir a boca, fui mais longe ainda. Elas estavam no pleno exercício da capacidade feminina de falar.
Apesar de eu estar entendendo o holandês a cada dia melhor, me desligar do que se passa ao meu redor por aqui ainda é muito mais fácil que no Brasil, por isso, sem muita dificuldade... fui procurar morros na paisagem que passava.
Alguns minutos antes de chegar à estação central telefono pra Susanne. Falava com ela em português quando fui atraído pela conversa das holandesas.

- Que idioma ele está falando?
- Parece espanhol...
- Acho que não!
- Poderia ser italiano.
- Italiano não é.
- Mas ele poderia ser um espanhol.
- Isso é verdade. Mas não faço idéia de que...

Cortei a fala dela com uma pergunta em holandês pra Susanne. Não olhei pra elas diretamente, fiz de sacanagem, me portei como se elas não estivessem ali, mas as espiava com o canto dos olhos. Elas não sabiam o que fazer, a garota sequer completou sua pergunta. Até eu terminar meu telefonema foi um silêncio só aquele vagão. Os outros passageiros devem ter ficado aliviados.
Logo ao desligar o telefone disse:

- Era português - de uma forma séria... mas com uma risada no final.
Elas riram também, de uma forma aliviada, por ver que eu me diverti com aquilo.

- Bem que eu achei que você poderia ser português mesmo - disse uma delas.
- Você tinha dito que eu poderia ser é espanhol – preferi deixar pra lá este comentário... uma segunda tirada na sequência não era necessário. Foi melhor dizer apenas que era brasileiro e em vez de português.

Os outros passageiros devem ter voltado a ficar incomodados... mas agora, eram três os que falavam.

domingo, 18 de maio de 2008

Pare!


Sábado de manha, ruas vazias. Ia tranquilo.

- O senhor poderia encostar?

A pergunta foi colocada de uma maneira educada, mas ela era cheia de ordem. Não tive dúvida, com súplicas internas (“multa não! Por favor!!!”) encostei logo a frente.
O primeiro encostou ao meu lado, e segundo parou um pouco mais adiante, pra dar cobertura.

- O senhor acabou de passar por um sinal vermelho.

Poderia dar um perdido, fingir que não entendia o que ele estava falando... tinha poucos segundos pra reagir... descartei esta opção.

- Pois é, passei sim.

O outro só olhava... se depender da cara dele vou ter que pagar mesmo.

- Por que o senhor fez isso?

Não havia carros, era uma cruzamento pequenino, daqueles que todo mundo já fingiu não ver um dia... não tinha qualquer motivo pra ter feito isso. Fiz por pura preguiça de parar, e depois ter que acelerar... menti.

- Estou com pressa, e como não vinha ninguém, passei.

Eu nunca fui multado na vida! Nem naqueles radares mandraques da Tamoios... Mas acho que desta vez não passa. A cara do outro policial continuava a mesma.

- Então o senhor fez isso com consciência...

Só fiz uma cara concordando que tinha feito algo errado mesmo mas que, de alguma forma, mostrava um certo arrependimento.

Acho que a cara foi boa... pelo menos o coração daquele policial era, ele me pediu pra não repetir o gesto, me deu bom dia e se foi.
O outro nem bom dia deu. Se eles revezarem as funções (quem aborda e quem dá cobertura), a próxima “vítima” vai pagar a multa com certeza.
Fiquei aliviado, afinal, tomar minha primeira multa de trânsito por passar num sinal vermelho de bicicleta seria muito cruel!

Eles saíram na minha frente, também pedalando. Pra não correr riscos de vê-los mudarem de idéia e mostrar que realmente estava com pressa, o que não era verdade, me aproveitei que pra bicicletas não há limite de velocidade, pedalei bem forte e, fingindo que não os via, passei os dois como um foguete...

domingo, 11 de maio de 2008

Confissão


Décadas de 60 e 70. O país estava em crescimento e nas grandes cidades faltava mão de obra. Seus próprios habitantes não davam mais conta do trabalho, principalmente do trabalho pesado, manual.
Foram buscar gente em lugares distantes, com realidades também distantes, mas duras. Gente que não se preocuparia em viver em condições precárias, ou em ser excluída socialmente. Gente que só queria um futuro melhor pra seus filhos.
Hoje seus filhos têm uma vida melhor que eles tiveram. Podem estudar, estão próximos a médicos, têm mais chances de vencer na vida... Mas seus filhos não aceitam a exclusão social na qual seus pais tiveram que viver, não aceitam não ter as mesmas coisas que os filhos dos outros têm. Parece haver neles uma constante revolta, isso é facilmente visto em seus rostos. Eles são facilmente reconhecidos, só andam em grupos. Sua revolta acaba, por muitas vezes, provocando vários problemas/conflitos sociais. Devido a estes problemas, oportunidades acabam se fechando pra quem vem deste grupo, gerando mais revolta... o que mantém e fortalece o círculo vicioso.

Isso parece uma realidade brasileira, mas não é. Desigualdade e exclusão social não são problemas exclusivos de nosso país.
Quando a Holanda precisou de mão de obra pra se desenvolver ela mandou buscar na Turquia e no Marrocos. Às pessoas que vieram não foi sequer ensinado holandês. A eles foram dadas as casas onde os holandeses não queriam morar. Acreditavam que,depois de um tempo, esta mão de obra voltaria ao seu país de origem. Eles ficaram... excluídos, mais ficaram. Seus filhos se revoltaram.

Hoje, dizem que fazem de tudo pra integração destes grupos, por vezes acho que só dizem, como imigrante, sinto que a integração não é realmente levada muito a sério – mas, pra mim, o maior interessado na minha integração sou eu mesmo. Assim, temos hoje em dia, um lado dizendo que quer a integração dos imigrantes e de seus filhos, e no outro pessoas que não querem se integrar e que muitas vezes culpam os outros por todos os seus problemas.

Eu bem que tento compreender o lado destes imigrantes, deve mesmo ser difícil estar na segunda, ou terceira geração e ser ainda tratado como estrangeiro. Mas vindo de um país onde muitos não tem qualquer chance, fico por vezes revoltado com a revolta alheia, e o desperdício de oportunidades. As oportunidades são muitas e elas não são abraçadas por falta de motivação, parece não haver estímulos, seja dentro de casa, ou no convívio do dia a dia.
Como falei numa outra vez, aqui há as “escolas brancas” e as “escola pretas”, nas brancas estudam os filhos dos holandeses e nas pretas os filhos de imigrantes. Logicamente, o nível das escolas dos imigrantes é mais baixo que o das escolas do holandeses. A pergunta que eu sempre me faço é: por que os imigrantes não matriculam os filhos nas escolas de melhor qualidade, em vez de fazer questão de não se misturar, mesmo que pra isso tenham que pagar o preço de uma educação de pior qualidade pros próprios filhos?!?! Aqui é a Holanda, mas a educação também pode ser ruim por aqui.

A cada dia que passa eu tenho uma vida mais “a holandesa”, mas continuo brasileiro. E a cada dia que passa me sinto mais distante destes imigrantes, a ponto de, por vezes, preferir não me integrar com eles... chego a ignorá-los.

Acho que acabei de confessar de que também estou começando a os excluir socialmente...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Viva a desobediência


Jogo futebol desde muleque. Mesmo tendo treinado em vários lugares quando criança, considero que o que aprendi de melhor foi na rua. Onde jogava o dia todo. O conselho mais importante de todos veio de meu pai, ao ver que tinha emprestado o pé direito de meu tênis pra um amigo que chegara descalço pra pelada:

- Por que você emprestou seu seu tênis pra ele?
- É que ele chuta com a direita e eu com a esquerda, assim nós dois podemos chutar!
- Pois, calce seu tênis no pé direito e comece a chutar com ele também...

Desde que cheguei por aqui tenho treinado com uma equipe da terceira divisão amadora da Holanda. Com apenas duas divisões profissionais, é possível dizer que este é o quinto nível do futebol holandês, que mesmo regionalizado apresenta um nível técnico bastante bom.

O jogo por aqui, seja na primeira divisão profissional ou na terceira amadora, é uma correria. Quando um holandês assiste um jogo brasileiro ele diz que chega a ter sono, pois “jogamos em camera lenta”. A regra aqui é passar a bola. Não dar o terceiro toque é quase uma obrigação. Também há a questão relacionada a saúde: o terceiro toque na bola é muitas vezes acompanhado de um carrinho, principalmente quando estamos de costas pro marcador – que saudades dos campos secos e duros do Brasil inibidores de carrinhos dispensáveis. Não sou fominha, nem fazedor de truques, só que por vezes me encho de ficar jogando a dois toques e fico com a bola uns segundos a mais que o normal (por aqui). Sábado passado não tínhamos sequer jogado 30 minutos de uma partida amistosa quando meu treinador me sacou: “Você ia acabar machucado!”. Hoje posso reconher o quanto é difícil pra um jogador brasileiro se adaptar num outro país. Sinto isso a cada treino... acada jogo.

Por vezes fico frustrado por não jogar como eu gostaria. Sendo um pouco melhor seria ainda mais desobediente. Mandaria com mais frequência os dois toques pra'quele lugar (mas não posso negar que as vezes ele é muito importante e que aprendi bastante jogando por aqui). Ao ser questionado pelo treinador ou por meus colegas, por querer ficar com a bola, segundo eles, por tempo demais, poderia dizer: “futebol não é assim ou assado... futebol é bola na rede!”. Poderia deixar com maior frequência os zagueiros falando sozinhos. Meus tornozelos não sofreriam tanto... Infelizmente não sou melhor que sou, mas felizmente continuo desfrutando de correr atrás de uma bola (mesmo dando mais passes de primeira que gostaria), sem falar das intermináveis discussões e análises no bar do clube depois dos jogos, daquela dorzinha muscular do dia seguinte e de tudo que vive um boleiro amador.

Hoje percebo que meus conterrâneos que deram certo por aqui podiam fazer no jogo tudo aquilo que eu gostaria, eram desobedientes de boca cheia... o mais interessante é que vários dos melhores jogadores holandeses que conheço parecem não ter aprendido a jogar de acordo com as regras daqui. Por isso acho engraçada a idolatria por este modelo, por esta cartilha.
Hoje continuo vendo a Holanda como um país formador de muitos jogadores, mas acredito que eles só são o que são, pois são (ou foram) desobedientes e não seguem (ou seguiram) com frenquência as regras exigidas por aqui.


Gullit e Rijkaard: filhos de imigrantes. Cresceram jogando futebol nas ruas de Amsterdam. Local preferido: uma praça aqui perto de casa.

Seedorf e Davids: nascidos no Suriname, imigraram pra Holanda quando crianças, tenho certeza que as ruas e os Guetos daqui foram suas maiores escolas.

Cruijff: Maior nome da história do futebol Holandês, também crescido em Amsterdam. Afirma constantemente que as crianças devem jogar mais futebol na rua, pois na rua são feitos os jogadores. Se dispôs ano passado a liderar um grupo de trabalho pra tentar tirar o Ajax do limbo que o clube se encontra. Uma de suas grandes ambições era remodelar toda a escola de formação de jogadores do clube. Seu plano não foi aprovado pelo futuro treinador do Ajax, Van Basten.

Van Basten: Atual treinador da seleção. Pelas discussões que acompanhei sobre o caso envolvendo o Cruijff e Ajax, acho que ele segue a cartilha (Toda regra deve ter sua excessão). Mas talvez seja por isso que teve muitos problemas com vários jogadores da seleção (ou que fizeram parte dela): Seedorf, Davids, van Bommel, Nistelrooy, Kluivert...

sábado, 5 de abril de 2008

Já não havia mais tempo...


Minha passada na Noruega pra visitar meu irmão, me fez retornar aos meus primeiros dias por aqui, quando o holandês ainda era uma coisa do outro mundo. O norueguês, como o holandês, é um idioma no qual não compreendemos uma palavra sequer, no qual ouvimos sons que acreditávamos antes não existir (alguns fonemas holandeses não consigo pronunciar até hoje).
Foi engraçado ouvir as pessoas na rua e tentar imaginar sobre o que estavam falando, ou entrar novamente no mercado e ver que não era possível compreender as instruções de preparo de uma comida congelada... mas foi engraçado por ser passageiro e por saber que esta fase aqui na Holanda pra mim foi superada (fico desejando sorte ao meu irmão!). Atualmente, acho que eu e a Susanne conversamos mais em holandês que em português.
Infelizmente eu não fiz ainda um bom curso de holandês, ainda tenho problemas no trabalho, quando tenho que escrever documentos importantes, ou fazer um pequeno texto pra promover algumas das nossas atividades no jornal do bairro. Mas até agora venho levando tudo numa boa e sentindo ainda um bom desenvolvimento a cada dia.
Mas, acredito que mesmo se tivesse feito um bom curso, teria também os mesmos probleminhas vividos no dia a dia de quem aprende um novo idioma (sugiro a leitura de um outro texto meu: Bonequinha vermelha).

Como no português, por vezes, diferentes letras, quando pronunciadas, acabam tendo em determinadas situações um mesmo som. Como por exemplo: escrevemos leite, mas (com excessão de algumas regiões do Brasil) falamos leiti. A Susanne sempre ficava com a cabeça quent(i) quand(u) eu dizia: “olha... esta palavra é escrita com E e não com I”. Ou, “e esta é com O e não U”
Aqui também acontece disto... por exemplo: um T e um D, quando aparecem sem vogal na sequência, são pronunciados quase da mesma maneira. Só por referência, todos os verbos, quando conjugados na segunda e terceira pessoa do singular terminam ou com T ou com D mudos. Por um lado é sempre uma loucura: “devo escrever com T ou com D?” Mas por outro lado facilita... afinal na hora de falar não precisamos pensar muito.

Como no trabalho tenho muito contato com crianças, acabo sendo obrigado a melhorar meu holandês diariamente, pois eles, diferentemente dos adultos, sempre reagem aos meus erros. Muitas vezes até me ajudam. Se bem que já aconteceu de crianças tirando um sarro bem forte da minha maneira de falar, ou de alguns erros que cometia. O mais incrível é que isso acorre na grande maioria dos casos com filhos de imigrantes, os quais os pais que vivem aqui por muitos anos falam um holandês incrivelmente pior que o meu, ou sequer falar holandês.

Pois bem, outro dia estava conversando com um grupo que ia jogar um partida de futebol, na qual um deles deveria ser o árbitro. Antes de escolher um candidato, fiz um discurso sobre a maneira como o pequeno árbitro deveria se portar... foi aí que veio a pérola.
Árbitro aqui é: SCHEIDS. (não tentem pronunciar... não vai ficar sequer parecido, haha) Este D do final, por não ter uma vogal depois dele acaba tendo o som parecido com o T.
Pra construir um verbo a partir do substantivo colocamos aqui EN ao final da palavra.
Quando fui falar que o árbitro deveria “arbitrar seriamente”, sei lá por qual motivo me esqueci do S do SCHEIDS, adicionando apenas EN ao final da palavra. Com isso, aquele som em comum de D e T deixou de existir (o som em comum deveria se transformar em DEN ou TEN). Assim, tive que, numa fração de segundos, optar entre D e T ... veio a última.
A palavra pronunciada foi SCHEITEN, em vez de SCHEIDEN, que na verdade deveria ser SCHEIDSEN (se não tivesse me esquecido do S). E o que disse foi: “O árbrito vai ter que SCHEITEN com seriedade!”
Eu tentei me corrigir, mas já não havia mais tempo... a turma, uns 16 garotos de 8 a 12 anos, veio abaixo.

SCHEITEN em holandês significa cagar. Não é nem algo mais infantil e puro como fazer cocô, ou mais formal como defecar... eu disse mesmo é: “o árbitro vai ter que cagar com seriedade!”

sexta-feira, 28 de março de 2008

Trondheim


Seria um sonho... sair do trabalho lá em São José, a cerca de 80 km do litoral, passar em casa, largar umas coisas, pegar outras e ir de encontro e ele, nem que fosse pra dar uma espiada, sentir a maresia ou receber uns bons fluídos de Janaína... Parece loucura...

A última era glacial abriu várias feridas no território da Noruega. O gelo que ia se derretendo e se escorregando em direção ao oceano rasgou várias partes do país. Pra fechar estas feriadas o mar se encarregou de seguir interior a dentro, criando os fiordes. Por isso, viver lá, a cerca de 80km do litoral pode não significar viver longe de uma praia. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem até Maomé.
Como quase nada pode ser perfeito, a temperatura da água nas regiões escandinávias não é convidativa a um banhinho de mar depois do trabalho, ou em qualquer hora do dia... mas valem a maresia e o visual.

Eu desembarquei em Trondheim na quinta a noite. Fui visitar meu irmão, aproveitando o fato de não trabalhar às sextas e de que, por aqui, depois do domingo de Páscoa há o feriado do segundo dia de Páscoa. O Daniel, depois de alguns períodos de vai e vem, está vivendo na Noruega desde de fevereiro.
Era a primeira noite de primavera mas ruas e calçadas ainda estavam cobertas de gelo. Foi muito bom ver meu irmão em sua nova casa, ver que ele está tocando a vida bem e feliz.
Nos três primeiros dias fomos pra montanhas, eu pra esquiar e ele fazendo snowboard. Como era engraçado olhar pro meu lado, na verdade na maioria das vezes tinha que olhar pra frente, pois o Daniel tá mandando muito bem e por isso eu acabava ficando pra trás... mas bem, era engraçado nos ver ali e ao mesmo tempo me lembrar de quando éramos crianças e corríamos juntos nas ruas perto de casa. Os mesmos pés que ganharam juntos os primeiros pares de chuteiras, passaram o dia todo gastando uma bola num campinho atrás de casa e imaginando que elas eram as maiores conquistas existentes no mundo, deslizavam hoje, novamente juntos, montanhas geladas em Vassfjellet.
Esquiar é uma ato familiar, as crianças ainda nem bem conseguem caminhar e já estão acompanhadas dos pais e as vezes dos avós calçadas num par de esquis. É bacana ver como as pessoas aproveitam o inverno juntas. Muitas famílias subiam os elevadores com uma mochila bem grande e no meio da descida paravam num canto qualquer, abriam um cobertor sobre a neve e aproveitavam ali o dia de sol. Como se estivessem numa parque qualquer. Churrasqueiras portáteis queimavam adoidado...

Por vezes eu cheguei a me imaginar em Minas Gerais, pra onde olhava via morros, era ladeira pra tudo o quanto é lado. Pra chegar à casa do Daniel tinha que subir... pra sair, descer. Viver por lá é um constante exercício de tonificação muscular das pernas e bunda. Mas diferente de Minas os morros não eram verdes da cor dos nossos pastos, mas branquinhos... e em vez da variedade de árvores do que restou de nossas florestas e uma grande predominância de pinheiros.

Eu nunca tinha visto o encontro do mar com montanhas cobertas de neve... impressiona. Eu não sabia que patos gostavam de água salgada! Fiquei ainda mais tentado a conhecer outros cantos da Noruega com montanhas ainda mais altas a beira dos fiordes.
Aproveitando as ótimas condições do clima no feriado. Com máximas de cerca de - 2 graus fomos fazer um churrasquinho na beira do mar. Pode parecer mentira, mas mesmo com tanto frio, num dia de Sol e sem vento é possível até pra dois irmão brasileiros aproveitar o dia ao ar livre. As salsichas assadas ficaram deliciosas, o refri estava sempre geladinho... era difícil querer ir embora.

Foram muito bons meus dias por lá. Vi mais uma vez como nós podemos viver e aproveitar a vida em condições bem diferentes das que normalmente conhecemos, condições que pra muitos seriam inaceitáveis. Voltei pra casa feliz. Feliz por ter conhecido mais um pedacinho deste mundo e, principalmente, por ter estado lá com meu irmão. Como já falei, foi bom ter visto que ele vai levando tudo numa boa, que ele está batalhando e conquistando seus objetivos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Cantinho das Rosas


Estes dias ouvi dizer que até no Jornal Nacional andaram falando a respeito, como sempre mostraram o lado “pra frente” de Amsterdam, onde pode-se tudo. Pude conferir, pela internet que alguns portais de notícias brasileiros deram também atenção ao Voldelpark.
O Voldelpark é um dos mais famosos parques de Amsterdam. Ele fica numa das regiões mais visitadas da cidade, bem próximo aos museus do Van Gogh e Rijksmuseum. Quase dentro do parque há uma pousada da juventude, o que também facilita a aproximação dos turistas. Quando estive aqui pela primeira vez me hospedei nesta pousada inclusive.
O parque é bem bonito, grande e visitado por todo tipo de pessoas. Mesmo no inverno, com um clima nada ameno, a quantidade de pessoas praticando esporte impressiona. O pessoal aqui não deixa de se exercitar por nada.
No verão os gramados ficam lotados, pessoas fazendo piqueniques, jogando futebol, friesbee, ou mesmo simplesmente estiradas pra desfrutar do sol. O sol aqui é muito mais venerado que no Brasil, afinal o outono sempre chega rápido.
Apreciar o sol pelos parques de Amsterdam é uma delícia. Não vejo a hora da primavera virar primavera de verdade, com seus dias mais longos e mais quentes, pra podermos voltar a frequentar nosso parque preferido, que no caso não é o Voldelpark e sim o Westerpark.
A parte negativa dos parques por aqui, no meu modo de ver, diferentemente do que as notícias poderiam ter sugerido (uma delas dizia: "em breve sexo será permitido, mas os cães sem coleira não"), são pra mim os cachorros. Não eles diretamente, mas sim o rastro de cocô deixado pelos parques, e ruas em geral. Pode-se dizer o país é de primeiro mundo, mas a educação dos donos de cachorro não existe. Antes de se se deitar em qualquer gramado por aqui, aconselho uma bela inspeção anti-cocô canino. Agora, sexo, o assunto das notícias, em qualquer dos parques daqui eu nunca vi.
Voltando ao Vondelpark, há uma parte dele que, pelo que parece, é onde o bicho pega ao anoitecer.
Outro dia, conversando com uns amigos do meu time de futebol, ouço o seguinte relato: “o rapaz que vive comigo, decidiu, depois de muito tempo, criar coragem e sair pra correr depois do trabalho. Ele estava na pista de cooper do Voldelpark, mas como não corria há muito tempo, teve que parar pra se sentar e pegar um ar.
Ele estava todo quebrado e, tentando se concentrar pra voltar a correr, não deu a mínima pra alguém que se sentou ao seu lado. Até que o alguém coloca a mão em sua perna. A concentração foi embora e o ar encheu os pulmões pra poder dizer: ‘Que isso meu? Não jogo no seu time não! O que você tem na cabeça?’. ‘Sou eu quem pergunto... se você não joga no meu time o que faz sentado aqui, ao anoitecer, num dos bancos do Cantinho das Rosas?’ ‘O parque é público e me sento onde quiser!’ ‘É... mas se você não joga no meu time você não deveria estar aqui, sentado, ao anoitecer. Afinal, aqui é o Cantinho das Rosas, nossa área! E por isso, quem se senta aqui joga no meu time!’ ‘Mas eu não jogo!’ ‘Então sai daqui!‘ ‘Como assim, sai daqui?! Já falei isso aqui é público, todo mundo pode se sentar aqui.’ ‘Todo mundo que jogue no meu time!!’ ...”
Enfim, segundo o relato, contado e ouvido ao som de muitas gargalhadas a discussão ainda se estendeu um bocado e nenhum dos dois conseguiu convencer o outro de sua razão.
A Holanda não é assim tão pra frente ao ponto de liberar geral o bacanal nos parques públicos, turistas não vão passear pelos parques vendo pessoas se pegando como fazem no bairro da luz vermelha pra ver prostitutas. A idéia é regularizar uma coisa que já acontece. Mas, por enquanto, isso é apenas uma proposta de um partido político. Se ela virá algum dia a ser regulamentada já é outra história.
Por trás desta proposta está a idéia de que regulamentando-se uma coisa, pode-se ter um maior controle sobre ela, evitando que por exemplo, que discussões como a descrita voltem a ocorrer.
Discussões como a citada são motivos de muitas risadas, mas a violência em decorrência delas não... e violência por aqui também existe!
Se alguma das minhas futuras visitas quiser fazer uma visita ao Voldelpark, sem problemas, eu acompanho, mas independente da proposta ser aceita ou não, pelo Cantinho das Rosas, eu só passo durante o dia.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Regras são regras...

Umas das maiores críticas dos holandeses, com relação ao próprio país, é que por aqui existem muitas regras, tudo é muito bem definido, estabelecido, objetivo...
É bastante diferente, pra quem vem do Brasil, ouvir pessoas reclamando disto. Pra nós, acostumados com uma país também de muitas regras, mas onde poucas funcionam, soa muito estranho ouvir reclamações desta natureza, de um lugar onde as crianças são obrigadas a ir a escola entre os 5 e os 18 anos e se elas não forem, os pais respondem judicialmente ao fato. Que se você não tem trabalho e está sem perspectivas, você se inscreve num “Centro de Trabalho e Remuneração” e eles encontrarão um trabalho pra você. Dum lugar onde chegamos à qualquer ponto de ônibus e podemos ver quantos minutos mais temos que esperar. Pra não ficar me alongando muito, vou logo dizendo que nunca tinha compreendido muito bem esta crítica dos holandeses. Porém, há algumas semanas, numa sexta feira, vejo uma reportagem na TV sobre as férias escolares que viriam na semana a seguir.
Neste época do ano, as escolas do país entram em férias por uma semana, pra comemorar a primavera que está pra chegar. Quase todos com filhos na escola, pegam esta semana pra viajar, geralmente rumo as montanhas de Áustria, França ou Itália. Pra fazer valer a história que o país é muito organizado, cada região do país entra de férias numa semana diferente, para que o país todo não vá pra estrada na mesma hora e assim possa continuar funcionando. Infelizmente, os congestionamentos são ainda bem grandes na sexta e no sábado anterior a semana de férias. As estradas ficam lotadas de carros com bagageiros carregados de esquis, snowboards e com pessoas ansiosas pra encontrar a neve nas montanhas.
A tal reportagem mostrava as pessoas que enforcaram um dia do estudo das crianças e foram pra estrada um pouco mais cedo, pra fugir dos congestionamentos e ganhar um dia de férias. As crianças efervescentes... afinal, quem não adoraria trocar um dia todo de aula (as crianças aqui ficam até as 15:30 na escola) por um dia a mais nas montanhas.
Em contrapartida, a mesma reportagem mostrava uma escola, um pouco mais vazia que o normal, na qual a direção afirmava que iria até a casa das crianças que tinham faltado para conferir o motivo da ausência. Caso a família não fosse encontrada e houvessem evidências de que ela teria partido, antecipadamente, pras férias, os pais seriam, devido ao parágrafo blá blá bla, do artigo trá lá lá, da lei sei lá qual, multados em cerca de 200 reais por criança, pois não haviam justificativas reais para os filhos se ausentarem de UM dia de aula. UM DIA!!!! Regras são regras...
Será que daria pra ganhar um dinheirinho extra por aqui??

segunda-feira, 10 de março de 2008

18 horas




Fazia tempo que um dia meu não tinha sido tão longo... acordei as 5:30 da matina e, fora algumas cochiladas no caminho de volta, só fui dormir perto da uma da tarde do dia seguinte.
O propósito era rever uns amigos, ouvir muitas histórias e contar algumas das minhas. Madrid foi o lugar ideal pra nos reunirmos. Como seria qualquer outro lugar que acolhesse aquele encontro. Não importava onde, o barato foi a convivência durante aquelas 18 horas.
Como quase sempre, foi incrível reencontrar velhos amigos, principalmente amigos de tanta convivência nos tempos de faculdade. Porém, melhor que isso foi perceber que existiu também grande afinidade com as pessoas que eles se tornaram. Além de relembrar o passado, nós vivemos o presente e ainda tagarelamos sobre o futuro. Voltei pra Amsterdam todo quebrado, fedendo a cigarro (é incrível como fumam estes espanhóis)... mas feliz.
Feliz por ter reencontrado os amigos, Wally e Jorge, por ter conhecido a Jordan, namorada do Jorge e companheira dele nós últimos dois anos do projeto peregrino. Feliz também pelo privilegiado que sou, ao ponto de poder me dar ao luxo de tirar um dia livre de trabalho e fazer um bate volta em Madrid... E ainda cruzamos o Rogério, antigo companheiro do time de futebol da faculdade, que atualmente vive em Madrid.
Bem, tenho que dizer que uma nova faceta do Wally surpreendeu tanto a mim quando ao Jorge. Estávamos no meio da balada quando anunciaram o show de um travesti. O Wally, antigo trabalhador daquele bar, prontamente nos disse: “Eu vou subir no palco e vocês vão ver que o traveco vai pegar no meu...”. Assustados nos perguntávamos: “Que história é essa de subir no palco pra ser acariciado publicamente por um travesti?!?!“ Bem, demos muitas risadas e não é que o danado do travesti foi brincar com dele mesmo!

domingo, 9 de março de 2008

Férias na minha própria casa




Amsterdam 25 de fevereiro de 2008

Faz tempo que não escrevo... desde que cheguei do Brasil me falta um pouco de vontade de escrever. Nem mesmo eu sei direito o motivo. É uma coisa bem interna, eu escrevo pra mim mesmo e meus relatos saem mais por necessidade própria de deixar registrado as coisas que passam pela minha cabeça. Depois de enviar meus emails eu leio e releio as coisas que escrevi. Fica quase tudo bem diferente do que é enviado por mim.
Antes de ir ao Brasil recebi meu pai e meu irmão por aqui. Não era a melhor época pra vir à Holanda. O outono é aqui é muito chuvoso, o que dificulta a fazer turismo. Melhor um dia seco com menos 10 graus que um dia de outono holandês com seus 10 graus e chuva interminável.
Meu pai veio em compania do Daniel. Meu irmão teria uma reunião de trabalho em Amsterdam. Pra quem nunca esteve fora do Brasil, e há apenas um ano frequenta cursos de inglês, ter uma compania destas em sua primeira viagem internacional seria muito bacana.
Meu Pai aproveitou a oportunidade... desembarcou por aqui, debaixo de vários casacos, com muita vontade de conhecer e se comunicar.
Muito além do turismo eu tentei apresentar ao meu Pai um país novo, com uma cultura nova (cultura esta formada por várias culturas) e às pessoas que dividem comigo minha vida por aqui.
As duas semanas se passaram bem rápido, mas foram muito boas, tanto pra mim como pra ele... em junho meu Pai volta, agora já mais confiante, trazendo minha Mãe.
Meu Pai foi embora numa segunda feira. Meu irmão tinha ido uns dias antes, pois tinha que trabalhar. De tão nervoso, por ter que sozinho andar pela imensidão que é o aeroporto de Amsterdam, ele não conseguiu nem se despedir direito... mas não fez mal... alguns dias depois estávamos desembarcando em São Paulo.
Depois de vê-lo tão nervoso na despedida, foi bem engraçado ouvir dele que ele cruzou um peruano completamente perdido no aeroporto e ainda foi guiá-lo antes de pegar seu voo...
Vai aqui em pequeno vídeo... filmado por mim equanto fazia algo de mais rotineiro por aqui, mas que naquele dia era diferente de sempre!

http://br.youtube.com/watch?v=kGnE3tGTvGo

Família grande, festiva e com boas cozinheiras é uma delícia... num final de semana já pudemos reencontrar quase todo mundo, bagunçar um bocado e, eu particularmente, contribuír bastante pros 4 quilos que ganhei num mês.
O gostoso de ficar longe é que chegando em casa somos mimados de montão... eram os bolos do Felipe, as mangas do Felipe, o queijo de nozinho do Felipe, a torta de sonho de valsa do Felipe...

Foi a primeira vez que fui a passeio ao meu próprio país. Estive em lugares antes deconhecidos e em muitos lugares já bastante visitados. Tudo parecia diferente... o bonito ficou mais belo e o feio... pior ainda.
Além da família foram muitos reencontros (ou encontros, com os filhos dos amigos!). Vi pessoas que não via há mais de 10 anos. Estive com aqueles com quem gostaria de estar todos os dias, mas infelizmente não foi possível ver a todos... o tempo é sempre citado como o maior dos problemas.

Ficar um mês de férias é muito bom, chega uma hora que se esquece do “estar de férias” e só se aproveita do que o momento oferece.
Alguns dias antes de voltar pra Holanda estava sozinho na casa, meus pais tinham saído com a Susanne... era meio da tarde e começou a chover... chuva típica do verão... a água caia forte... fui pro quintal. O cheiro da chuva e os pingos batendo na cara me faziam lembrar de quando era criança. De quando jogava bola nas férias em dia de chuva. De quando nunca imaginava ter a possibilidade de fazer tudo o que já fiz...

Vai aqui um link pra um clip com fotos da viagem: http://br.youtube.com/watch?v=1vbFoVSWb0U


Outro dia fui substituir a mãe da Susanne numa partidinha de tênis. Todas as sextas se encontram ela e o pai da Susanne com uma irmã dele e um amigo pra umas raquetadas. Naquele dia era eu com meus 28 anos, dois sub 55 e um sub 65. Mesmo tendo começado a jogar a pouco tempo, perder pra uma dupla com a idade bem mais avançada que a minha nunca é digerido facilmente. Felizmente consegui, acompanhado de meu sogro, vencer a partida... desde que estou aqui já vi muito, hoje acabo compreendendo e aceitando bem quase tudo. Mas ainda há vezes nais quais me demora um pouco a cair a ficha. A outra dupla, era formada por antigos namorados. A tia da Susanne e o amigo tiveram uma longa relação no passado. Hoje ambos vivem com companheiros fixos... mas ainda se cumprimentam com um selinho. O Gerard, depois de terminar com a tia da Susanne, assumiu uma relação homossexual que já dura mais de 20 anos.

Há uns 3 anos um amigo partiu do Brasil pra uma jornada pelo mundo. Com seu espírito livre, e muita coragem, ele está quase terminando sua peregrinação... em alguns dias o Jorge pega um avião de Madrid rumo ao Brasil.
Durante todo esse tempo acompanhei parte de sua caminhada, muito bem descrita em seu site (http://www.espiritolivre.net/). Eu sei que tudo vai virar um livro... vou me orgulhar de meu amigo quando tiver minha cópia de seu livro, principalmente se tiver uma dedicatória. Foram muito bons os anos que convivemos juntos na faculdade.
Hoje vivemos numa realidade bastante diferente, mas por vezes bem parecida.
Infelizmente pros mais curiosos, o final de sua jornada só será publicado quando o livro for impresso. Eu vou esperar pelo livro... mas decidi que vou viver um pouco do final desta grande aventura. Decidi que não queria ver, por mais uma vez, o tempo culpado de uma coisa que não tem a ver com ele. Na quinta chego a Madrid pra compartilhar com o Jorge, na compania do Wally, 18 horas de uma aventura de cerca de três anos.
Vai passar rápido... eu sei. Mas também sei que não me esquecerei jamais!

Jorge e Wally, nos vemos na quinta!

O Papai Noel é meio holandês

Amsterdam, 25 de novembro de 2007

Outro dia estava visitando umas escolas por causa do meu trabalho e acabei me perdendo quando tentanva com minha bicicleta chegar de uma escola a outra. Diferentemente de quase tudos os bairros por aqui, este tem ruas largas, casas grande, com garagem, jardins na parte da frente. Parece que estamos numa outra cidade. É um bairro relativamente novo, Buitenveldert.
Numa destas ruas vi um punhado de árvores, devido à aproximação do inverno, já sem quaisquer folhas, mas repletas de um fruto pequeno, vermelho e redondo. Eu estava com um bocado de pressa. Continuava a pedalar e a encontrar mais árvores como aquela... os frutos caiam pelo chão. Nunca tinha visto árvore como aquela. Pensei: “estamos perto do Natal, fruta pequena, vermelha e redonda só pode ser cereja.”
Poxa, mas cereja pra maioria dos brasileiros é daquelas frutas que “dão” num potinho de vidro, e que já vêm em caldas... Eu tendo horário pra chegar no meu destino, e ainda perdido, resolvi não parar pra conferir. Não sei porque vieram estúpidas vozes na minha mente: “frutinhas desconhecidas e vermelhinhas... devem ser venenosas!” Acho que algum dia ouvi isso quando era criança e justo naquele momento veio me assombrar. Eu devia ter parado.
Me senti um caipira descobrindo algo novo na cidade grande... ou melhor, me senti um paulistano chegando ao interior e vendo pela primeira vez um pé de jabuticaba: “que frutinha mais estranha... não cou comer isso aí não”.
Tenho que voltar àquela rua. Só espero que não me perca pra chegar lá.

Não tem como fugir, mesmo quando nos perdemos nos damos com eles... o Sinterklaas e o Zwarte Piet.
Diz a tradição que o Sinterklaas vive na Espanha e que no dia 5 de dezembro ele chega, com seu cavalo branco e acompanhado de seu ajudante, o Zwarte Piet, para presentear as crianças que se comportaram bem durante o ano.
Todas as crianças colocam os sapatos ao lado das lareiras antes de dormir. Caso elas tenham sido boas, o Zwarte Piet desce pela chaminé e deixa dentro do sapato um presente. Caso a criança tenha se comportado mal... aiaia... em vez de um presente ela recebe umas xibatadas e ainda pode ser levada pra Espanha.
O Sinterklaas usa uma roupa vermelha, um chapeu também vermelho, um cajado e tem uma longa barba branca, parece um papa. Ele é na verdade uma figura que representa o Santo Nicolau (Um bispo que viveu na Turquia).

Aqui, as crianças aguardam mais a chegada do Sinterklaas e seu ajudante que do próprio Papai Noel. Daria pra dizer que é coincidência a presença destes personagens tão parecidos, se não fosse o fato dos holandeses celebrarem em uma de suas antigas colônias esta figura carismática.
Nesta colônia, a festa ficou tão famosa que mesmo depois do lugar passar pro domínio inglês ela continuou... mas o Sinterklaas virou Santa Klaus, na recém fundada Nova Yorque.
Quando é que eu iria imaginar que o Papai Noel é na verdade uma criatura inicialmente moldada por holandeses... Se bem, que entre o original é o americanizado eu prefiro o segundo.
Enquanto o Papai Noel carrega seu próprio saco de presentes, desce de seu trenó pra se escorregar pelas chaminés e rechear os sapatinhos das crianças, o Sinterklaas fica cavalgando seu cavalo branco e bota o pequeno Zwarte Piet pra trabalhar pra ele. Detalhe... como já falei num email anterior, zwart em holandês é preto, ou negro. Ou seja, Zwarte Piet em português seria: Pedro, o negro.
Hoje há várias teorias pra explicar a presença desta figura, uma delas diz que ele é um italiano limpador de chaminés, e a pele é escura devido a sujeira... pra mim, infelizmente, é muito complicado não relacionar as simpáticas figuras ao nada simpático imperialismo. A colonização e ao colonizado. Ao Senhor e ao escravo.

Bem... não importa a minha opinião sobre o assunto, a festa é bonita e nos próximos anos conviverei com estes alegres personagens sempre nesta época do ano. E quem sabe não serei ainda algum dia “obrigado” a me transfigurar num deles pra animar uma festa de família... Se bem que ontem vi na TV uma reportagem sobre a preocupação de pessoas, com relação ao fato do Papai Noel estar cada vez mais tomando espaço do Sinterklaas. Parece que a criatura vem devagarinho se apoderando do criador.

Esta semana recebi também o prolongamento de meu visto. Desta vez por 5 anos. Como vai ser gostoso passar os próximos anos sem ter que me preocupar com setor de imigração, documentos, provas de relação estável, envelopes, protocolos...
O prolongamento do visto caiu direitinho na semana que comemoro um ano por aqui... por acaso é hoje!
Tirando os primeiros meses de inverno, nos quais eu não podia trabalhar, o ano passou voando. Neste primeiro ano tenho muito a comemorar, foi muita batalha mas também muita conquista.
O gostoso é que eu posso dizer que hoje vou comemorar estando aqui na Holanda mais em família do que nunca... Daqui a pouco saio de casa pra ir buscar meu irmão e meu pai no aeroporto. Estou muito feliz, mas também muito ansioso... mas não mais que meu pai, que aos 57 vai desembarcar por estes lados pela primeira vez.
Estas duas próximas semanas vão ser deliciosas, quero mostrar de tudo pra ele. E gostoso também vai ser em sua despedida, quando vou poder dizer, como já fiz muito quando vivia em São Paulo: “Pai, até o próximo final de semana”.

Nosso canto

John Franklinstraat 53/II
1056 SZ Amsterdam, 31 de outubro de 2007

As vezes eu me lembro do dia que nos mudamos do Intervale, lugar onde passei os primeiros 14 anos de minha vida. O caminhão da mudança estava cheio, ainda era de manha e um amigo apareceu. Foi muito estranho. Tinha passado todos os anos de minha vida acreditando que nunca sairia dali. Aquele conjunto habitacional era meu mundo. Volta e meia, acompanhado de meus, não poucos amigos, invadiamos mundos distantes... o BNH, Integração, Parque nas Amérias, Vila Tatetuba, Ismênia... outros conjuntos habitacionais nas nossas redondezas.
Aquele acontecimento foi um golpe nos meus sonhos... continuar a crescer por ali, rodeado de meus amigos.
Mal sabia eu que aquela era a primeira de minhas infinitas mudanças... com meus pais, me mudei mais 3 vezes, enquanto vivi em São Paulo, passei por 4 apartamentos. Só no meu ano no Porto foram 5 casas diferentes... e agora aqui em Amsterdam acabo de chegar ao meu segundo lar. A cada mundança novas fronteiras… pessoas... perpectivas.

Como falei numa outra oportunidade, eu vivia com a Susanne num apartamento “Anti-Kraak”. Pagávamos um aluguel bem barato, pro apartamento ficar ocupado enquanto o projeto de restauração não fosse aprovado. Em junho, recebemos uma carta dizendo que poderíamos permanecer por lá até o meio do ano que vem. Foi uma alegria... mas uma pequena frase em letras pequenas no final da página dizia: “A qualquer momento vocês podem ser notificados de que a desocupação tem que ocorrer”. Pois bem, um mês depois recebemos uma nova carta: Tínhamos 3 meses pra sair. Data limite: 31 de outubro.

Procurar por apartamentos aqui em Amsterdam é um inferno. Se você quer alugar, você tem que torcer pro propietário ir com sua cara (são tantas as pessoas que se candidatam que os caras escolhem pra quem eles vão querer alugar), tem que se pagar os olhos da cara pra um apê de alguns metros quadrados e ainda é necessário pagar o preço de um mês de aluguel pro site da internet que disponibiliza os anúncios on line!!!

Meu trabalho foi uma experiência interessante, mas que nunca mais quero repetir, porém, por causa dele, devido ao meu contrato de trabalho, tinha direito de fazer um financiamento pra comprar um apê. Somando meu salário com o da Susanne, até que poderíamos ter condições de comprar algo bem bacana por aqui. Detalhe... as parcelas do financiamento são incrivelmente mais baratas que um mês de aluguel!
Saímos a luta... a procura da casa própria. Este é daqueles sonhos que quase tudo mundo tem, inclusive eu, mas não imaginava que me envoleria com ele tão rapidamente.
Na minha cabeça, eu iria procurar anúnicios no jornal, marcar e fazer visitas, me imaginar vivendo por ali. Depois ir ver outras opções, comprarar aquelas que mais gostei, negociar que os proprietários...
Na primeira visita, um apê que logo descartamos, me estranhou o fato de outra pessoa estar o visitando na mesma hora que a gente. No primeiro que tivemos interesse em comprar, chegamos no horário combinado com o corretor e ele, alguns minutos atrasado, deixava a nós e as outras pessoas que também tinham combinado aquele horário com ele um bocado ansiosos. Como já falei, o interesse apareceu quase de imediato. Daria até pra sonhar em viver por ali, idealizar o interior... se não fosse a multidão de pessoas que fazia a visita no mesmo momento que a gente. É muito estranho, você está ali, imaginando se seu sofá caberá naquele canto, se a TV ficaria bem naquele outro... de repente alguém cruza na sua frente e o sofá e a TV vão se embora, só fica o espaço vazio!!
Fizemos um proposta. Como sempre abaixo do preço de compra pra começar a negociação... Ouvimos um OK... iriam computar nossa oferta... no mesmo dia o apê foi vendido pra uma daquelas pessoas que cruzou na minha frente.
Comprar uma casa por aqui é uma competição surreal... Muitas vezes os proprietários abrem uma lista e dizem: recebo propostas até sexta feira, a mais alta leva. Numa destas oferecemos 13mil euros a mais que o preço de compra. Não levamos... descobrimos algum tempo depois que fomos a sexta proposta mais alta. O apê foi vendido por quase 30 mil a mais que o preço pedido pelo proprietário.
Já estávamos quase desanimando, achar algo legal naqueles 3 meses estava sendo quase impossível... o aluguel estava se tornando a opção mais viável. Mas, numa segunda feira recebemos um telefonema de nosso corretor (tivemos que contratar um corretor pra ficar a procura de boas oportunidades pra gente). Ele tinha encontrado um corretor conhecido dele num bar na sexta a noite. Aquele corretor tinha vendido um apartamento que tínhamos visto e gostado, mas que enquanto analisávamos a situação ele fora vendido. Porém, a mulher que o tinha comprado, desistiu dele pois voltou com o namorado e, por isso, queria escolher algo em conjunto com ele.
Nunca tinha ficado tão feliz por duas pessoas que nem conheço reatarem uma relação. No mesmo dia acertamos a compra... Aí foi uma correria maior ainda... negociar com os bancos pra tentar pegar a menor taxa de juros, melhores condições. Reuniões no cartório... papéis... documentos...

Há duas semanas pegamos as chaves e fizemos a mudança. Ainda há muita coisa pra arrumar, mas desde o primeiro minuto já me sentia em casa, ou melhor... já nos sentíamos em casa. Se não fosse ainda um bocado de bagunça que ainda cruzamos por estes vastos 52 metros quadrados, daria pra pensar que já vivemos aqui por muito tempo.

O mês não foi só intenso pela nova casa... meu segundo dia nela foi meu primeiro dia num novo trampo. Vocês não podem imaginar como estou feliz em me distanciar daquela picaretagem do trabalho antigo. Agora sou responsávem por elaborar um planos pra oferecer atividades esportivas pra crianças de uma outra região da cidade. Estou ainda na segunda semana, mas já deu pra ver que vai ser infinitamente menos frustante!

No meio da correria com a quase nova casa recebemos a visita da Camila, amiga que fiz no Porto e arquiteta. Ela veio acompanhada do namorado, também arquiteto, o Gustavo. Os dois vieram aqui enquanto o apê estava vazio. Recebemos boas dicas de como poderíamos deixar nossa futura casa ainda mais bacana.
Receber a Camila por aqui, ainda mais nesta fase, foi uma delícia... é sempre gostoso receber meus amigos. Mas ela viveu comigo boa parte das coisas que vivi no Porto, aquele fantástico ano que mudou minha vida. Ela viu de perto minha relação com a Susanne começar. Ela estava lá, há cerca de 4 anos e meio quando este relacionamento se iniciou como uma grande festa, sem quaisquer pretenções mais longas que minha data de retorno ao Brasil e “hoje” ela esteve por aqui e acompanhou de perto o início de uma nova etapa...

Fato um pouco deprimente deste mês foi o final do horário de verão. Por isso, os dias que já estavam mais curtos, perderam uma hora a mais! Fica tudo um pouco mais triste... disse tudo mas não todos... afinal com uma casa nova, um trabalho novo, com a visita do meu pai e do meu irmão no final de novembro se aproximando e com minhas férias no Brasil a partir do dia 15 de dezembro cada dia mais próximas não há como não estar feliz!

Dois caras legais

Amsterdam, 27 de setembro de 2007

Em setembro eu completei 28 anos... foi um aniversário bem diferente daqueles tantos que passei em “casa”. Não teve aquela deliciosa reunião informal e espotânea de minha família, não teve bolo da minha mãe, não teve parabéns pra você. Fui comer com a Susanne num restaurante bem bacana e depois demos uma volta pela cidade. Foi diferente dos outros... mas muito gostoso e especial. Foi a primeira vez desde que nos conhecemos, que estivemos juntos no meu aniversário.
Setembro, além de me dar mais um ano, me deu a visita de um amigo. O Wally passou duas noites por aqui. Foi uma correria, visita rápida é assim... mas foi uma delícia. Está difícil escrever sobre setembro, mês que no Brasil é comemorado pelo fim do inverno, enquanto deste lado lamenta-se a aproximação dele... sempre coloco aqui coisas que me marcaram, muitas vezes falo de lugares, viagens, encontros... desta vez vou descrever duas pessoas...

O Santiago é um cara bacana. A primeira vez que eu o vi, eu estava chegando pra trabalhar... o cara estava furioso, ele davas chutes numa parede. Logo percebi que ele não falava holandês, a raiva provavelmente vinha por ele não conseguir se comunicar com ninguém. Só quem passa por isso sabe o tamanho da frustação de não compreender e de não ser compreendido.
A raiva dele era tanta que fiquei até receoso de me aproximar... um tempo depois eu cruzei com ele de novo. Eu ia entrar no prédio onde trabalho e atrás de mim vinha ele. Abri a porta e disse: “Tu primero!”.
Poxa, ele olhou pra mim e um sorriso apareceu naquela cara ainda meu frustada. Desenrolei meu velho portunhol e conversamos um pouco. Ele é latinoamericano como eu.
Outro dia nos encontramos de novo, ele já parecia mais feliz, percebi que já arranhava bastante bem o holandês. Como ele aprendeu rápido!
Eu me vi nele, me lembrei das primeiras vezes que compreendia as conversas, que conseguia ser mais claro nas coisas que dizia.
Quando nos vemos ele fica sempre um pouco mais alegre, e eu também. É bom ver alguém que passou pela mesma mudança que eu se adaptando a nova casa.
Na primeira vez que conversamos eu cheguei a perguntar se ele sentia falta de casa... a resposta foi de tamaha inteligência: “Agora... aqui é minha casa”. O Santiago tem 6 anos.

O Bas também é um cara bacana... Conheci ele ano passado quando passei a treinar numa clube de futebol aqui em Amsterdam. Alto, loiro, gosta de uma cerveja, viajou pelo mundo, deu um tempo na vida daqui e cuidou de um bar por alguns anos numa ilha do Caribe. Praticante de esportes de inverno e de verão é um típico holandês.
Num final de semana fomos pra um bar depois de um jogo. Na quarta o treino foi mais diferente do que qualquer outro. O Bas um dia antes estava fazendo Kitesurf. Uma corrente de vento inesperada durante um salto fez ele voar ainda mais. Ele se chocou contra um pier.
Enquanto nossa equipe treinava, um integrante dela estava numa cama de hospital em sua segunda noite de sua nova vida. Um vida sem movimentos do peito pra baixo.

As vezes a gente tem medo das mudanças... as vezes não temos paciência pra enfrentar as consequências de nossas decisões e por isso acabamos não aproveitando as coisas positivas que encontramos... as vezes, ou quase sempre, reclamamos de boca cheia.
O Santiago não queria vir pra cá, ele diz que a mãe dele também não gosta daqui, mas ele em seus 6 anos sabe que aqui é sua casa e que mesmo as vezes tendo crises de raiva ele tem feito de tudo pra se adaptar.
O Bas queria continuar a jogar futebol e a fazer kitesurf. Ele não escolheu sua vida nova... mas quando o médico responsável pela sua revalidação perguntou onde ele queria chegar ele disse: ”Onde eu quero chegar eu não sei... eu quero é poder conquistar um pouquinho a cada dia”.

Caminhando contra o vento

Amsterdam, 17 de agosto de 2007


Puxa… faz tempo que não termino uma carta... tenho que dizer termino, pois neste tempo todo sem dar notícias outras cartas foram começadas. Como é estranho, quando pouco acontecia as palavras pareciam brotar na minha cabeça, agora que muito acontece elas me faltam...

O meu irmão esteve aqui me visitando. Como foi gostoso recebê-lo. A visita foi ainda mais especial por acontecer na mesma semana que encontrei meu primeiro trabalho oficial, com contrato assinado e um salário bastante animador pra quem sempre andou contando os centavos pra fazer tudo o que fez. Só foi uma pena ele ter ido embora dois dias antes de eu ter ouvido que a vaga seria minha.
Por falar em ir embora... é incrivel como é mais difícil nos despedir de alguém quando não somos nós que partimos.

Meu trabalho é numa ONG que presta serviços à prefeitura de Amsterdam oferecendo atividades esportivas e culturais pra jovens de uma das regiões da cidade. Estou conhecendo uma parte da Holanda bastante desconhecida por todos. Quando pensamos na Holanda imaginamos um país livre de preconceitos, que respeita relações homossexuais, onde o aborto, a eutanásia e o uso de drogas leves são permitidos. Temos a idéia de que este é o país que aceita e recebe muito bem as diferenças... mas não é assim que funciona.
Como qualquer sociedade, esta também tem seu calcanhar de aquiles – se bem que algumas têm o pé inteiro, mais a canela e a região até o pescoço! Bem, a integração dos imigrantes árabes, principalmente turcos e marroquinos, dos antilianos e surinameses com a sociedade local não ocorre como deveria... ou melhor, ela quase não ocorre! É difícil dizer quem é o principal culpado: o meio que não acolhe ou o estranho que não se inturma...
A Holanda é de certa forma dividida... a branca e a preta. A primeira é a sociedade que vemos na TV e a outra é formada por estes imigrantes... as escolas, por exemplo, são extra-oficialmente classificadas de escolas brancas (Witte School) e escolas pretas (Zwarte School)... não é preciso dizer mais nada.
A ONG pela qual eu trabalho oferece, em nome da prefeitura, atividades pra entreter e educar, principalmente, os jovens desta parte segregada da sociedade. A causa é nobre... as ações quase nada. A prefeitura, pra dar satisfações a sociedade, dá dinheiro pra uma ONG fazer o trabalho... alguém já viu algo parecido no outro lado do oceano?!
É uma dinheirama jogada fora... enquanto isso os jovens, filhos dos que imigraram, ficam no seu canto com um sentimento de revolta contra a parte branca e contra eles mesmos... a tensão existente entre os grupos vindo cada qual de um país é bastante grande. Problemas de rebeldia e violência são cada vez mais comuns... algumas pessoas aqui deveriam assistir “Cidade de Deus”.
Do meu lado, estou tentando fazer o melhor possível, o que não é muito facil... mas estou tentando. A instituição da picaretagem no meu local de trabalho ainda me desistimula um pouco, mas acho que estou começando a conseguir enfrentar melhor isso. Com os jovens ainda estou na fase de ganhar a confiança, ser reconhecido e depois respeitado... se conseguir isso já valeu o desafio e como já falei, o salário fixo no final do mês tem me deixado um pouco mais animado.

Uma das loucuras por aqui é que as férias são uma coisa muito importante pra todos, e por isso muito respeitadas, inclusive pelos pratrões. Quando fui começar o trampo falei: “já tenho férias programadas com minha namorada, isso é um problema?” Não foi, duas semanas depois de começar tive duas semanas de férias. Nós não fomos muito longe, pra mim foi até um bocado estranho férias tão cedo, mas a Susanne estava precisando.
Por alguns dias fomos pra uma ilha no norte da Holanda, Terschelling. Eu tento nunca comparar as coisas, mas desta vez foi difícil não ir com minha mente à Ilhabela, Ilha Grande ou mesmo Ilha do Mel, onde pude aproveitar dias maravilhosos desfrutando de praias muitas vezes desertas. Eu sabia que por aqui estas coisas são meio irreais... mas bem, era melhor voltar a realidade e aproveitar os dias que teria por lá.
Logo na chegada pegamos as bicicletas já reservadas. Pode-se levar o carro até a ilha, mas a grande maioria das pessoas opta por alugar bicicletas, gastar umas calorias a mais e aproveitar o vento na cara durante estadia. As mesmas lojas que alugam as bicicletas levam nossa bagagem ao camping. Pra minha supresa a ilha era mais bonita que imaginava. Não só pra minha, era nítido que muitos dos visitantes se surpreendem com a natureza encontrada. É uma mistura de bosques, diques, pequenas dunas e praias. A ilha estava cheia e por isso pedalávamos sempre pra locais mais distantes a fim de encontrar as praias mais tranquilas... e não é que pra minha felicidade eu descobri que existem praias desertas na Holanda!!!! Parecia um milagre, mas foi só pedalar uns quilometros a mais e caminhar um pouco sobre as dunas que lá estavam elas... vazias. A gente se encostava no pé das dunas, pra aproveitar um pouquinho de sombra de alguns arbustos. De lá até a água eram vários campos de futebol de distância. Nunca tinha visto praias tão largas. Mas não fazia mal, pois como o sol aqui não chega a pino nesta época do ano, a areia, mesmo no dia quente, não chega nem perto de arder. A caminhada pra água é bem gostosa e na volta já chegamos secos, a canga quase não fica molhada! Haha. Foram dias bem gostosos de tranquilas idas e vindas à água, que felizmente não estava tão fria... numa destas resolvi fazer meu primeiro tchbum pelado por estas bandas. Ao sair da água eu não tive como não cantar: “caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento... eu vou... por que não?!?! por que não?!?!”