Nesta vida não tenho muitas conquistas materiais, porém as histórias são diversas. Quem eu seria sem minhas histórias? Não seria eu.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Pode?!


O Mateus e a Amanda tinham acabado de comer. Cansados, depois de um longo expediente na segunda série e no jardim 2, eles foram assistir TV enquanto a mãe foi arrumar a bagunça.
Nada de muito diferente... um dia como qualquer outro... até que a mãe, a Tia Aline, ouve os gritos das crianças:

- Mãe!!!! Vem aqui!!!!!
- Não dá filhos, tenho coisas pra arrumar.
- Mãe!!!! Vem!!!!
- O que foi? Que gritaria é essa? - a comunicação era ainda à distância.
- O Felipe tá na TV.
- Que Felipe? - ainda de longe
- O Felipe, nosso primo.
- Não pode ser. O primo de vocês vive bem longe, não tem como ele aparecer na TV aqui em São José. - já na mesma sala onde estavam as crianças.
- Mas a gente viu ele sim! - confirmava a Amanda.
- É mãe, ele estava andando de bicicleta! - disse o Mateus.
- Tá bem... ele estava na TV sim. - e sem vontade de continuar a discussão foi terminar com a cozinha.

Algum tempo depois, toca um telefone:

- Oi Aline, tudo bem?
- Oi Bete, tudo bem. Sabe, as crianças tão cismadas que viram o Felipe na TV. Pode isso?

Será que pode?
http://www.vnews.com.br/terravidaoumortenoticia.php?id=39577

domingo, 26 de outubro de 2008

Ainda não foi desta vez...


* Parece que ando escrevendo bem... tanto que um amigo me pediu pra escrever um texto pro blog dele. Há textos bastante bacanas por lá, um deles é o que segue abaixo.
Quando vivia em São Paulo ele era uma compania distante, mas era importante... pra chegar até ele eram cerca de 30 minutos, sem trânsito. A partir daí a viagem era quase sempre rápida e confortável.

Em Amsterdam ele fica a poucos minutos de casa, de bicicleta. Com ele poderia ir ao trabalho, levando inclusive a magrela, e pra vários outros pontos da cidade. Eu nunca ouvi dizer que o daqui é o melhor do mundo, mais limpo, mais bonito, ou mais bem cuidado. Mas funciona muito bem, e está em plena expansão. Mesmo assim, se ele não estivesse por aqui não sentiria muita falta... pois eu vou mesmo é pedalando.

Em São Paulo, quando voltava lá das bandas do Jacanã, naquele último trem que eu não poderia perder, pois chegaria em casa "só amanha de manhã", eu ia quase dormindo. Trem vazio. Cabeça encostada na janela e pés esticados sobre o banco da frente. Numa destas entra um policial e gentimente pede pra que eu me sentasse direito.

Semana passada tive que pegar o metrô, numa rara oportunidade. Vagão vazio, era bem cedo. A cabeça encostava na janela. Entram três policiais.

- O senhor tem autorização da empresa pra colocar os pés sobre o banco?
- Não entendi - retirando prontamente o fone de ouvido do tocador de MP3.
- O senhor tem autorização da empresa pra colocar os pés sobre o banco?
- Não senhor.
- Posso ver seu documento de identidade?
- Um momento...

O policial recebe o RG, retira um bloco do bolso e começa a anotar algumas coisas.

- Seu endereço por favor?

O endereço é anotado no mesmo bloco, e logo depois o RG é devolvido.

Quando eu imaginava que aquilo já havia terminado, eis que vem uma nova pergunta:

- Qual foi o motivo?
- O que?
- Por qual motivo o senhor estava viajando com os pés sobre o banco? - Eu quis rir
- Mmm... Porque é mais gostoso sentar assim
- Foi por conforto então?!
- Isso - o motivo foi anotado também no mesmo bloco.

O policial deu bom dia e foi, com seus colegas, pro outro lado do vagão.

Em São Paulo, eu nunca deixei de colocar meus pés no banco da frente por causa daquele encontro com o policial. Não me lembro direito, mas imagino que logo depois que ele saiu voltei a me esticar.

Por aqui, por mais vazio que o metrô estiver, a partir de agora, meu pés ficarão mesmo é no chão. Afinal acho que 35 euros de multa por viajar com os pés sobre o banco devem doer no fundo da alma. Ainda não foi desta vez, felizmente o transgressor não era eu, ele estava sentado a alguns metros de mim. Eu, curioso, apenas ouvia o desenrolar daquele "crime".
A cabeça voltou a se encostar na janela...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Casa da Pasta

Outro dia, depois de muito tempo, troquei umas palavras com a Joana, umas das habitantes da inesquecível Casa da Pasta.
Fazia muito tempo também que não conversava com algum deles... eram 8 seus reais habitantes, mais eu e a Manu, moradores adotivos.
Além de mim, da Joana, portuguesa e da Manu, italiana, viveram lá a Kika, alemã, a Clare, escocesa, mais a Michela, o Stefano, o Marco, o Paulo e a Melania, todos italianos.

No início, eu , na busca por conhecer pessoas novas, ia sempre jantar no restaurante central da universidade do Porto, lá comiam muitos estudantes recém chegados à cidade como eu. Na volta, quase sempre passava pela Casa da Pasta, que ficava no meio de caminho pra minha. Muitas vezes, ia dormir com uma segunda janta em meu estômago.
Com a passar do tempo eu não chegava mais ao restaurante central, a Casa da Pasta era meu destino quase certo, isso quando ela não era apenas passagem para outro ponto final.
Depois de não aguentar mais a intrometida Dona Florisbela, proprietária da casa onde aluguei um quarto por cerca de 3 meses, a Casa da Pasta foi refúgio. Lá fiquei um mês antes de conseguir encontrar um outro quarto com um preço que eu poderia pagar. Foi, inclusive, graças a Dona Florisbela que os conheci. Quando cheguei pra me acomodar em um de seus quartos, alguns de meus futuros amigos estavam na sala, estudando português, com alemão e um espanhol que também vieram a ser vítimas da portuguesa. Acabei virando um bom professor.
Foi durante meus dias na Casa da Pasta que vi meus amigos partirem pro Natal, numa das experiências mais tristes daquele ano. Que foi por sinal a grande responsável pela viagem mais incrível que já fiz.

Quase no mesmo dia que falei com a Joana fui jantar com a Susanne num restaurante aqui perto de casa. Um pouco antes da comida chegar ouço uma música começar...

"Voi gente per bene che pace cercate, la pace per fare quello che voi volete, ma se questo è il prezzo vogliamo la guerra, vogliamo vedervi finire sottoterra. Ma se questo è il prezzo lo abbiamo pagato, nessuno più al mondo dev'essere sfruttato. heh!!"

Alguns instantes mais tarde a Casa da Pasta pulsava mais forte em minha mente... não havia quem ficasse parado ao som da Contessa. Poucas não foram as vezes que uma grande festa não foi animada, ainda mais, pelos Modena City Ramblers. Algumas de minhas melhores festas foram lá.
Eu, como todos os outros não italianos, não entendia quase nada do que era cantado. Mas sempre percebi o lado revolucionário daquela música. Talvez tão revolucionário como foi aquele ano pra mim. Ano vivido com extrema intensidade... As pessoas que estiveram por lá comigo sabem do que falo. Felizmente convivo todos os dias com alguém que também fez parte daquilo. Que me ajuda a não esquecer das coisas. Em Albergue Espanhol é possível de se entender um pouco de meus sentimentos, além de se ter uma bela idéia do que a Casa da Pasta significa.



O que mais me espantou depois de ouvir aquela música não foi a explosão de sentimentos que ela causou em mim, ou o fato dela me levar à minha querida Casa da Pasta. Mas sim o tempo que levou pra eu a reconhecer. Foi de certo modo um choque me realisar que muitas coisas de um passado nem tanto distante pareciam já estar perdidas. Acho que estou mergulhando muito fundo no presente.
Com certeza tenho que continuar vivendo o presente, mas de hoje em diante vou brigar ainda mais pra não esquecer o passado... tenho que procurar meus "velhos" amigos.
Clare, Kika, Joana, Manu, Marco, Melania, Michela, Paulo e Stefano, tenho saudades...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Viva a desobediência - II




Saiu no "Parool", jornal de circulação municipal aqui de Amsterdam um dia depois da nossa primeira partida do campeonato, na seção de Futebol Amador. Amanha vamos pro nosso quarto jogo.
Este ano eu me considero um pouco mais desobediente...


A gastronomic story


Segunda feira, perto da 8 da noite. Sempre pedalando do trabalho pra mais um treino com meu time de futebol.

Eu vou sempre direto do trabalho pro treino. Na segunda, quase sempre sem muita vontade. As pernas estão ainda meio pesadas do jogo do sábado, dores musculares ainda presentes, isso quando não há algo mais doendo. Depois, só chego em casa bem tarde, passando das 11 da noite.
Na segunda eu saio do trabalho umas 7h, como num restaurante indonesiano e pedalo pro clube. Vou sempre devagar, fazendo a digestão... com aquela moleza que dá quando estamos de barriga cheia.

Amsterdam nesta hora é uma loucura, todo mundo saindo do trabalho, quase todo mundo com pressa... mas eu, na segunda, vou sempre devagar. Desta vez, no meio do caminho cruzo em poster colado numa parede. "Estômago" estava escrito nele. Mas o que me chamou atenção foi o aquele garfo de filme de terror. Continuei meu caminho, aproveitando do que restava de minha tranquilidade antes da correria do treino começar.


Na quarta pedalo sempre mais depressa. Saio do trabalho as 6:15h. Tenho pouco tempo pra comer e estar em campo as 7h. Faço o mesmo caminho mais ligado. Chego pra treinar até com mais vontade! De comer pouco pra não ficar de barriga cheia, as vezes treino até com um pouco de fome.
Nesta quarta, cruzo mais uma vez o tal garfo. "Caramba! Estômago é português!" Mesmo com o tempo apertado paro pra ver o cartaz:
- Vencedor de vários prêmios, inclusive no festival de cinema de Rotterdam.
- Atores pra mim desconhecidos, a excessão do Paulo Miklos que faz uma participação especial.
- Em cartaz desde 4 de setembro em algumas salas de Amsterdam.


Sexta feira, 9:45 da noite, estávamos eu e a Susanne numa sala de um cinema por aqui. Foi muito bacana! Nós dois gostamos muito.

Só ainda não entendi a diferença do cartaz brasileiro pro internacional... mas bem, felizmente, ele chamou a minha atenção. "Estômago - A gastronomic story" sugiro!

14 de setembro

Era meia noite, me levaram pro jardim... começou um "parabéns"!
O Nelson não conseguiu sair a tempo, era felicitado por quase todo mundo.

A festa não era minha, mas passando da meia noite o dia era meu, ganhei um "parabéns" e arranquei muitos abraços.

E o Nelson continuava lá dentro, recebendo as saudações...

Meu primeiro aniversário aqui na Holanda não foi o meu, foi do Dirk, irmão da Susanne. A reunião de família corria gostosa... vou a cozinha pegar algo pra beber quando entra uma tia, que ainda não conhecia, mas que sabia ser um pouco distante da família. A mulher me deu um aperto de mão, 3 beijinhos no rosto e disse: "meus parabéns!!!"
Agradeci meio perplexo... logo depois ao encontrar a Susanne eu disse:
- Su, eu sabia que sua tia era distante, mas não imaginava ser tanto assim. Você não vai acreditar... ela me confundiu com seu irmão!!!!
Virei motivo de piada... pela mesma razão que o Nelson ficou encurralado pelos cumprimentos, que o fizeram perder meu espontâneo "parabéns", a tia da Susanne me felicitou. Na Holanda a família toda é cumprimentada.

Bem, meu dia tinha começado bem gostoso, numa festa de família que não era minha mas que acabou virando um pouquinho. E eu ainda tinha família do Brasil comigo. O Nelson estava por aqui naquele final de semana.
Todos dizem que sou muito bem adaptado por aqui, que sou exemplo de integração. Acho que dizem isso pois, muitas vezes ao ter dificuldade em aceitar certas coisas, acabo apenas disfarçando bem. Mas há ocasiões nas quais prefiro não disfarçar, faço questão de mostrar minhas diferenças.
Por exemplo, é difícil aceitar que o abraço quase nunca faz parte dos cumprimentos de um aniversariante. Por isso, passou perto de mim no dia 14 de setembro e falou feliz aniversário, eu já pego logo pelo pescoço!
Eu não queria também organizar uma festa, botar na agenda, com hora pra começar e pra terminar... só queria ter um dia bacana, acompanhado de pessoas que queriam estar comigo, como sempre foi em meus aniversários no Brasil.
Assim, nada foi organizado, fomos pra casa dos pais da Susanne... foi muito bom, até o verão, em seus últimos suspiros veio me brindar com um domingo de Sol.
Quem quis, e pôde, veio. O dia começou com um belo café da manhã, depois fomos levar o Nelson pra passear pela região, compramos farinha em um moinho de vento, pra que bolos fossem feitos no Brasil, e tivemos ainda um churrasquinho...
A noite, ao voltar pra casa, acontece daquelas coisas que fazem qualquer dia ser fechado com chave de ouro: ouvi, num encontro virtual com 11 pessoas da minha família, através de 5 diferentes computadores, em 3 três diferentes países, em português, meu último "parabéns" das comemorações de meus vigésimo nono aniversário.