Nesta vida não tenho muitas conquistas materiais, porém as histórias são diversas. Quem eu seria sem minhas histórias? Não seria eu.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mais que um jogo


Quando vivi em Portugal, uma família patrícia me acolheu como se dela eu fizesse parte... mas fora daquela casa, não havia o quê me fizesse sentir fazer parte daquilo tudo, sendo um igual no meio deles. Talvez fosse eu mesmo que me via como uma diferente.

Já faz mais de três anos que por aqui estou... meu esforço pra aprender o idioma e entender este país valeram muito a pena. Não me lembro de um momento em que me sinta uma carta fora do baralho. Como já disse um amigo: "pra mim você é um holandês que fala meio diferente".

Era final da EUFA Cup... Porto x Celtic, da Escócia. Muitos amigos, internacionais e brasileiros, iriam assistir ao jogo juntos. Decidi sair sozinho. Da avenida dos Aliados gritávamos todos: Puuuoooorrrtooo!! Não se importaram de onde vinha, acho se quer repararam em meu sotaque. Não os achei desconfiados... Fiz mais contato com eles por ali, naqueles 90 minutos, do que no resto do tempo que fiquei por lá.

O convite foi feito: "o jogo começa as 20.30h... traga sua bebida e seja bem vindo, desde que você não torça pros de vermelho!!" Vários amigos apareceram e, como combinado, a torcida foi pro Brasil... houve porém diversão com o sufoco alheio, ainda mais sendo a Corea do Norte a pressionar um penta campeão! Apesar da amizade, uma tal rivalidade aparecia, principalmente entre os boleiros holandeses e o brasileiro. O nosso futebol ainda faz muito sucesso por aí, mas tenho certeza que não seriam apenas os argentinos a sorrir com nossa derrota... "se a gente for hexa vocês vão ter que me aturar!!!!"

Que poder tem este jogo: um dia nos faz iguais... no outro, transforma os amigos em grandes rivais.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Gritos


Os pedais giravam rápidos... estávamos já quase em casa.

Em meio a gritos meio sem sentido... Help!!!!Help!!!!

Com a noite escura, só as distinguimos dos marrecos devido aos gritos de desespero. Duas cabeças lutavam pra não se afundar no meio daquele canal

Nossas bicicletas e nossos casacos ficaram pela grama...

"Eu não aguento mais!!!!" De cima de um dos barcos alcançamos aqueles dois... um terceiro par de mãos apareceu pra nos dar uma força.

"Você está bem?!" Os olhos estalados, como aos do Munch, me diziam muito apesar da falta de resposta.

As sirenes gritáram por todos os lados... bombeiros, polícia e ambulâncias.

"A polícia tá vindo?!" - ele queria fugir... mas sem forças ficou sentado.

O silêncio dela se quebrou: "tem gente na água!!!! tem gente na água!!!!" sendo que ela mesma já estava em terra.

Não cruzássemos aquela ponte... teriam dado muito trabalho aqueles dois

No meio daquela zona... saímos de fininho.

Com pés molhados seguimos nosso caminho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Senhor bandeira...


Aqui cada time leva um bandeira... o deles tinha acabado de anular um gol meu. Nada de complicado: num rebote do goleiro eu botei pra dentro. Mas ele estava lá, com bem mais de trinta em cada perna, levantando seu objeto de trabalho. Não seria minha glória, mas seria o 2x2.
Alguns minutos depois fui substituído... parei perto do alambrado pra conversar com amigo, que tinha saído antes de mim.
Sua resposta confirmou o que eu já sabia: não estava impedido!
Dois senhores, provavelmente com a mesma idade do bandeira, se divertiam com o meu lamento.

- senhores, eu estava impedido ou não?

Enquanto um balançava negativamente a cabeça o outro disse:

- você não estava impedido... mas só por bem pouquinho - em seguida uma longa risada.
- poxa... mesmo com este tanto de gente boa aí o bandera de vocês ainda dá uma ajudinha?!?!
- pois é, tá vendo aquele aí, o número 5. É meu filho, já jogou no Ajax e no Barcelona...

Algum tempo depois um deles me pergunta:

- você por acaso é belga?
- não senhor.
- de onde você vem então? Não reconheço o seu sotaque.
- se o bandeira dos senhores não tivesse anulado o meu gol eu teria comemorado assim... imetei a comemoração do Bebeto contra a Holanda em 94.
- hahaha... você é brasileiro! As pessoas aqui não esquecem do Bebeto.
- pois saiba que eu joguei contra o Pelé. Aqui no estádio olímpico de Amsterdam. E nós ganhamos de 1x0! - todo orgulhoso.
- e eu apitei aquele jogo - disse o outro.
- ah... e senhor deveria ter um bandeira com este - o bandeira acabava de cruzar a nossa frente.
- eles riam...

- bandeira! estes senhores aqui estão me dizendo que o senhor se equivocou quando anulou o meu gol.
- os dois continuava rindo...

Ele parou, olhou pra'queles dois e disse:

- estes aí... estes dois... eles não sabem de nada!

A risada foi geral...

terça-feira, 6 de abril de 2010

A minha glória

Contra-ataque pro nosso time. Recebo a bola em velocidade... um marcador vem em minha direção. Com um corte seco, ele - que não é qualquer um - cai. Eu conduzo a bola mais um pouco.
Logo ao cruzar a linha da grande área, um pouco a esquerda da meia lua, vejo um companheiro livre perto da marca do penalty.
Ele grita quase desesperado: Passa a bola Felipe!!!!
A chuva caia forte, o campo todo elameado... o tempo meio que parou:

- Acabei de deixar meu marcador no chão. Ainda mais ele, que há muitos anos quase me faz agonizar. E enquanto eu quase agonizava, vocês todos pulavam de alegria! Se tem alguém que vai fazer este gol, esse alguém sou eu!"

A noite era fria. A multidão se esqueceu de São João e se enfiou naquele galpão velho pra torcer pra um baixinho. Com meus 14 anos sofri feito um coitado, ainda mais quando ele - que agora ainda tenta se levantar - marcou aquele gol... Em hipótese alguma, eu passaria aquela bola.

Pro desespero de meu colega, ele viu um chute sair cruzado... Seria a minha glória!



Felizmente, tínhamos o Branco, e ele fez daquela noite fria uma grande festa... Infelizmente, não sou melhor do que sou e a minha bola não foi pra onde eu queria...

Pra ser sincero, não me importo muito em ter perdido aquele gol, ou mesmo que nós tenhamos perdido com um gol no finalzinho... a lembrança do Aron Winter caído no chão e o prazer em enfrentar aqueles que, até outro dia, jogavam em outros campos (Barcelona, Inter de Milão, Lazio, Bordeaux, Ajax, entre outros) vale mais que qualquer coisa.

quinta-feira, 25 de março de 2010

tecla sap


Normalmente, quando eles começam a falar, eu ligo o botão do português. Já estou no meu quarto treinador desde que cheguei por aqui. Eu sei que pode ser, em grande parte, minha prória culpa, mas até agora nenhum deles me cativou profissionalmente. Os cara falam, gesticulam, se empolgam, dão conselhos e eu... apenas finjo que escuto. Por vezes, quando percebo que tá todo mundo concordando, dou uma balançadinha na cabeça também.

Infelizmente não é sempre que eu consigo me desligar. Com o passar do tempo por aqui, fica cada vez mais difícil não compreender o holandês, mesmo quando eu quero. Ai, algumas vezes me deparo com algumas pérolas.

Naquele dia o entusiasmo do treinador era tanto, durante um dos intermináveis treinos de passe, que a tecla sap aqui de minha cabeça não funcionou... mesmo sem eu querer o modo voltou pro holandês

- pro passe sair bom, vocês devem fazer um movimento preparatório - ele ia e vinha... vocês têm que chegar à bola com velocidade! Mas sem esquecer o equilíbrio. O joelho da perna de apoio deve estar um pouco flexionado. A batida na bola tem que ser com força! - numa bola imaginária ele imitava a realização de um passe.

Eu quis rir... felizmente nem todas as pérolas me irritam! Mas se há uma coisa que eu não preciso é alguém querendo me ensinar dar um passe, ou um cruzamento, ou a dominar uma bola... Não digo que eu não possa melhorar nestas coisas, até que poderia, mas no alto de meus 30 anos eu quero mesmo é bater minha bolinha. Tudo o que está entre o calçar das chuteiras e o jogo... atrapalha, inclusive o treinador.

Pode parecer loucura, mas eu trocaria com certeza o campo branquinho aí de cima por um treinador menos empolgado.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A single story

Como quase sempre algo começou a pipocar em minha cabeça... como quase sempre, enquanto eu pedalava...
Logo imaginei: "hoje vou escrever alguma coisa!"
Ao chegar em casa, com uma história quase pronta em minha cabeça me deparo com palavras de uma desconhecida.
Palavras de alguém que nunca tinha visto, mas que diziam o que eu sempre quis dizer. Não vivi as experiências dela, mas reconheço o significado da história dela.

O texto quase pronto desapareceu...