eusouminhashistorias

Nesta vida não tenho muitas conquistas materiais, porém as histórias são diversas. Quem eu seria sem minhas histórias? Não seria eu.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Volta Redonda, Janeiro de 2012

- Vó, eu estou indo embora.
- Mas você já vai meu filho? Fica mais um pouquinho!
- Não dá vó... tenho que ir.
- Então vai com Deus meu filho. Eu vou rezar por você.
- Obrigado vó. A Senhora fica com Deus também.
- Não vou ficar não meu filho. Eu já estou indo embora também.
- Pra onde vó?
- É... eu estou indo. Já estou muito velha, né?
- Mas quando a senhora for, vai ser bom ter a senhora lá em cima olhando e rezando pela gente.
- É, mas aí eu vou ter que levar um binóculos, né.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

AI - 2012

Estes dias fui a uma livraria de um shoppping em São José... queria comprar uns livros, pra poder ler, em português, durante o ano.

Chegando lá, como tinha alguns livros em mente, prefiri fazer um pedido à procurá-los nas prateleiras.

- Estes aqui eu vou ter pro senhor. Agora este eu vou ficar devendo.
- Por que? Está vendendo muito?
- Não, não. Este não temos mesmo.
- Como assim?
- É... não temos este. E não podemos entregá-lo nem por encomenda.
- Por quê não?
- É que o dono da livraria se recusa a vender este livro por aqui.
- ???? - não sabia o que dizer
- Espere um pouco que vou buscar os outros livros pro senhor.

Fui embora sem qualquer dos livros que queria comprar.

Impossível pra mim comprar qualquer coisa por lá. O lugar onde conheci, pessoalmente, a censura .

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Percatas...

Quando criança ia muito pra casa de meus avós... principalmente dos avós maternos, em Lorena.
De lá, sempre ria com meu tio Hélio, irmão de minha avó que com ela vivia.
Ele, sempre munido de seu par de havaianas, "as legítimas" segundo Chico Anísio, andava pra cima e pra baixo. Em casa seu grande amigo era seu rádio, quase sempre ligado à Canção Nova:

- "Magão"... cê pode consertá meu rádio?

Bastava meu pai da uma mexidinha aqui, outra ali, que o problema já estava resolvido.

- "Magão"... "Magão"... óia as percata nova que eu ganhei.

Cheio de orgulho com suas percatas novas, uns sapatinhos de lona com solado de corda, ele caminhava pra missa no domingo seguinte.

Há algumas semanas andava por Barcelona. Já tinha visto muito da cidade. Decidimos então andar a toa, devagar, sem rumo. Tomamos tempo pra olhar pras pessoas, pras vitrines, pros detalhes.

- Fe!! Venha aqui... estes sapatos ficariam bem legais pra você!

Do alto de minhas havaianas olho pra'queles sapatos... eu ri sem parar!

Meu tio Hélio, na verdade, estava muito a frente de seu tempo. Suas havaianas tinha mudado um pouco, já não eram mais as legítimas: brancas com as tiras e as laterais azuis. Mas hoje em dia são queridas por pessoas de todos os lugares onde já estive.
E suas percatas, não mais fabricadas pelas Alpargatas, viraram produto de moda em Barcelona e em Amsterdam.

Acabei nem as comprando... mas acho que ainda este verão, feito meu tio Hélio, caminharei por aí, sobre cordas, num domingo qualquer.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Chuva


Eu precisava justificar minha ausência nas ultimas eleições. Com meus documentos todos em mão estou eu na fila do cartório eleitoral em São José.
Na minha frente um rapaz. Parecia ser da minha idade. Um senhor mais velho o escoltava naquela fila. Seu jeito tão introvertido meio que chamou minha atenção.

- Próximo!
- Eu preciso tirar um novo título de eleitor.
- Por que, o senhor perdeu o seu título antigo?

Todo ano é a mesma coisa... desde a muito tempo me lembro de acompanhar o contraste entre as festas de fim de ano e a tristeza dos que perdem tudo com nossas chuvas de verão.
Quase todos nós, brasileiros, vemos por estes dias, entre um churrasco e outro, o drama alheio pela TV.
Felizmente, pra grande maioria, o próximo banho de mar, ou gole de cerveja sempre vem pra levar qualquer sentimento ruim provocado por tais imagens. Estamos por um lado bem perto de muitos dramas, mas ao mesmo tempo nos sentimos bem longe deles.

- É eu perdi sim. Eu moro lá no Rio Comprido. A chuva veio, levou a minha casa e tudo que estava nela - E ele continuou: "inclusive minha mulher, e minhas duas filhas mais novas..."

Nunca tinha sentido tanto as chuvas de verão como naquele instante...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mudanças

Eu era pequeno, tinha sete anos, mas me lembro bem de minha mãe entrando em casa: "a fila vai começar".
Acompanhada de várias vizinhas lá se foi ela pra porta da escola. A fila na verdade ainda não tinha começado... elas foram as primeiras. Eu era um dos primeiros. Depois de quatro dias de revezamento, entre mãe, pai, tios, tias e vizinhos meu lugar foi garantido. Lá era assim... ou nossa família passava várias noites na fila pra estudar na Palmyra, escola da prefeitura, ou corríamos o risco de ter que ir pra Ana Candida, escola do estado, onde a maioria dos pais não queria ver seus filhos.

Dar uma voltas com ele já foi até desejo de criança... de certa maneira foi ele que me introduziu a São Paulo. A primeira vez que estive por lá sozinho foi ele que me levou ao meu destino. Nele sempre me senti seguro, respeitado. Enquanto por lá vivi, ele fez parte de minha vida. De poucas coisas os paulistanos se orgulhavam tanto: "o nosso é o melhor do mundo!"

Em todo o tempo que vivi em São Paulo convivi com aquelas obras. Não me lembro de por lá passar sem ver trabalhadores no meio daquele mar de lama. Estranho como a gente se acostuma com estas coisas. Como pode ser normal aceitarmos viver ao lado daquele esgoto, sempre parados no trânsito. Felizmente o trabalho daqueles homens e daquelas máquinas traria algo de positivo praquela cidade.

Pais que queriam uma educação boa pros seus filhos, e não tinham dinheiro pra uma escola particular, encaravam aquela fila. A chance de ver os filhos longe da escola do estado valia qualquer esforço. Hoje, mais de 25 anos depois, imagio que meus pais passariam semanas naquela fila. Com professores na família sei que a qualidade da nossa educação estudal não melhorou muito. Lá, naquela época, era difícil de se repetir... hoje impossível não passar de ano.

Ao sair por aí começei a questionar como ele poderia ser o melhor do mundo, ainda mais com uma tarifa tão elevada. Ignorar que ele cresceu alguns quilômetros seria incoerência, mas compreender como uma cidade tão grande e tão rica tenha um metrô daquele tamanho, hoje em dia tão lotado e que entra em colapso por causa de uma blusa é impossível.

Depois de viver por um ano ao lado de outro rio, percebi o quanto deplorável são aquelas águas. Depois de viver alguns anos abaixo do nível do mar me entristece a falta de controle daquelas enchentes. Me entristece ainda mais saber que um governo investe tanto pra uma marginal sem enchentes, como tanto foi prometido naqueles anos que por lá estive, enquanto seu sucessor volta a se esquecer dequeles rios, jogando tudo o que foi feito pelo ralo.

De longe não compreendo como pode um partido ficar tanto tempo no poder sem quase nada fazer para oferecer a São Paulo o que São Paulo precisa.

De longe eu me espanto o povo paulista se acostumar com a desgraça... e por consequência, mesmo depois de 16 anos seguidos de um mesmo governo, não exigir mudanças.


sábado, 28 de agosto de 2010

Um alô

A Susanne as vezes se espanta por eu quanse nunca tentar fazer contato com meus conterrâneos por aqui.
É comum ouvir o português brasileiro pelas ruas. Na grande maioria das vezes me contendo em apenas ouvir um pouquinho. Sei lá... acho que sou aqui a mesma pessoa que sempre fui. Quando vivia no Brasil não saía pela rua falando com todo mundo que cruzasse meu caminho.

Com as chuvas que estão caindo por aqui, deixei minha bicicleta no trabalho e peguei o metrô pra ir a uma reunião. Sentado, vejo alguém se aproximar e, com um gesto, pedir pra se sentar ao meu lado.
Dando passagem eu disse: "só porque eu gostei de sua camisa" - em português. Ele vestia uma camisa do São Paulo.

Era perto do meio dia, já estava pensando no meu almoço. A resposta, na forma de pergunta, veio lenta:

- Você é brasileiro? - O cheiro da cachaça veio forte
- Sou sim.
- Eu ti vi lá na estação RAI, com sua namorada! - nem me lembro a última vez que peguei um metro com a Susanne
- Acho que você está me confundindo - ele, mesmo lentamente, não parou mais de falar. Dava pra ficar bêbado pelo cheiro. Me lembrei de um "outro encontro"

...

- Eu conheço todo mundo aqui. Dou conselhos. Se os caras querem passar umas férias no Brasil, eu até ajudo. Já vivo aqui há muito tempo. Sei de tudo...
- Bom chegou minha estação. Vou indo. Um abraço.
- Falô meu! Meu nome é Vini... quando encontrar alguém por aí, manda um alô!