Nesta vida não tenho muitas conquistas materiais, porém as histórias são diversas. Quem eu seria sem minhas histórias? Não seria eu.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Pai e Mãe




Minha casa nunca foi tão grande... minha casa é pequenina, de um tamanho perfeito pra duas pessoas começarem a vida. Minha casa ficou gigante, ela cresceu pra acomodar aqui meu pai e minha mãe. Passamos um mês delicioso. Rapidinho, passei a ter a sensação que meus pais pertenciam ao meu cotidiano. Era muito normal tê-los por aqui, parecia que sempre foi assim... era uma normalidade perfeita.
Viajamos pra ver meu irmão. Família Mota reunida na Noruega... coisa inimaginável a tempos atrás... coisa real hoje em dia... coisa inesquecível viajar por meio de fiordes, montanhas e cachoeiras, nesta incrível Noruega, num carro cheio de gente de família.
Receber visitas por aqui sempre é muito bom. Espero continuar a recebê-las por muito tempo. Já tinha recebido todo o tipo de gente: amigos das antigas meio distantes nos últimos tempos; amigos dos amigos; ex- cunhada; novos amigos; amigos das antigas que continuam amigos e família. Mas pai e mãe é diferente. Esta passagem deles juntos por aqui era das coisas que eu mais desejava desde de minha vinda. Finalmente eles vieram e conferiram juntos como andam as coisas. Felizmente eles não "me viram chorando e nem vão precisar mentir, 'pros da pesada', que eu vou levando..."
Hoje meus pais já foram embora, estão novamente onde eles pertencem... minha casa continua grande, mas agora de uma maneira diferente.
É um grande mais vazio... mais vazio de gente, mas cheio de lembranças.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Central Station"


Eu viajava de volta pra Amsterdam... ia chegar por lá e aproveitar uma tarde longa de primavera fazendo um piquenique com a Susanne no Westerpark.
Eu tinha almoçado com um amigo e a volta pra Amsterdam duraria cerca de uma hora e meia... viagem longa por aqui.
Com mais cerca de meia hora pra chegar, sentam-se duas holandesas ao meu lado. Eu que já estava longe, olhando perdido pela janela, ao perceber que aquelas duas no auge de seus 18 ou 20 anos não ficariam um segundo sem abrir a boca, fui mais longe ainda. Elas estavam no pleno exercício da capacidade feminina de falar.
Apesar de eu estar entendendo o holandês a cada dia melhor, me desligar do que se passa ao meu redor por aqui ainda é muito mais fácil que no Brasil, por isso, sem muita dificuldade... fui procurar morros na paisagem que passava.
Alguns minutos antes de chegar à estação central telefono pra Susanne. Falava com ela em português quando fui atraído pela conversa das holandesas.

- Que idioma ele está falando?
- Parece espanhol...
- Acho que não!
- Poderia ser italiano.
- Italiano não é.
- Mas ele poderia ser um espanhol.
- Isso é verdade. Mas não faço idéia de que...

Cortei a fala dela com uma pergunta em holandês pra Susanne. Não olhei pra elas diretamente, fiz de sacanagem, me portei como se elas não estivessem ali, mas as espiava com o canto dos olhos. Elas não sabiam o que fazer, a garota sequer completou sua pergunta. Até eu terminar meu telefonema foi um silêncio só aquele vagão. Os outros passageiros devem ter ficado aliviados.
Logo ao desligar o telefone disse:

- Era português - de uma forma séria... mas com uma risada no final.
Elas riram também, de uma forma aliviada, por ver que eu me diverti com aquilo.

- Bem que eu achei que você poderia ser português mesmo - disse uma delas.
- Você tinha dito que eu poderia ser é espanhol – preferi deixar pra lá este comentário... uma segunda tirada na sequência não era necessário. Foi melhor dizer apenas que era brasileiro e em vez de português.

Os outros passageiros devem ter voltado a ficar incomodados... mas agora, eram três os que falavam.

domingo, 18 de maio de 2008

Pare!


Sábado de manha, ruas vazias. Ia tranquilo.

- O senhor poderia encostar?

A pergunta foi colocada de uma maneira educada, mas ela era cheia de ordem. Não tive dúvida, com súplicas internas (“multa não! Por favor!!!”) encostei logo a frente.
O primeiro encostou ao meu lado, e segundo parou um pouco mais adiante, pra dar cobertura.

- O senhor acabou de passar por um sinal vermelho.

Poderia dar um perdido, fingir que não entendia o que ele estava falando... tinha poucos segundos pra reagir... descartei esta opção.

- Pois é, passei sim.

O outro só olhava... se depender da cara dele vou ter que pagar mesmo.

- Por que o senhor fez isso?

Não havia carros, era uma cruzamento pequenino, daqueles que todo mundo já fingiu não ver um dia... não tinha qualquer motivo pra ter feito isso. Fiz por pura preguiça de parar, e depois ter que acelerar... menti.

- Estou com pressa, e como não vinha ninguém, passei.

Eu nunca fui multado na vida! Nem naqueles radares mandraques da Tamoios... Mas acho que desta vez não passa. A cara do outro policial continuava a mesma.

- Então o senhor fez isso com consciência...

Só fiz uma cara concordando que tinha feito algo errado mesmo mas que, de alguma forma, mostrava um certo arrependimento.

Acho que a cara foi boa... pelo menos o coração daquele policial era, ele me pediu pra não repetir o gesto, me deu bom dia e se foi.
O outro nem bom dia deu. Se eles revezarem as funções (quem aborda e quem dá cobertura), a próxima “vítima” vai pagar a multa com certeza.
Fiquei aliviado, afinal, tomar minha primeira multa de trânsito por passar num sinal vermelho de bicicleta seria muito cruel!

Eles saíram na minha frente, também pedalando. Pra não correr riscos de vê-los mudarem de idéia e mostrar que realmente estava com pressa, o que não era verdade, me aproveitei que pra bicicletas não há limite de velocidade, pedalei bem forte e, fingindo que não os via, passei os dois como um foguete...

domingo, 11 de maio de 2008

Confissão


Décadas de 60 e 70. O país estava em crescimento e nas grandes cidades faltava mão de obra. Seus próprios habitantes não davam mais conta do trabalho, principalmente do trabalho pesado, manual.
Foram buscar gente em lugares distantes, com realidades também distantes, mas duras. Gente que não se preocuparia em viver em condições precárias, ou em ser excluída socialmente. Gente que só queria um futuro melhor pra seus filhos.
Hoje seus filhos têm uma vida melhor que eles tiveram. Podem estudar, estão próximos a médicos, têm mais chances de vencer na vida... Mas seus filhos não aceitam a exclusão social na qual seus pais tiveram que viver, não aceitam não ter as mesmas coisas que os filhos dos outros têm. Parece haver neles uma constante revolta, isso é facilmente visto em seus rostos. Eles são facilmente reconhecidos, só andam em grupos. Sua revolta acaba, por muitas vezes, provocando vários problemas/conflitos sociais. Devido a estes problemas, oportunidades acabam se fechando pra quem vem deste grupo, gerando mais revolta... o que mantém e fortalece o círculo vicioso.

Isso parece uma realidade brasileira, mas não é. Desigualdade e exclusão social não são problemas exclusivos de nosso país.
Quando a Holanda precisou de mão de obra pra se desenvolver ela mandou buscar na Turquia e no Marrocos. Às pessoas que vieram não foi sequer ensinado holandês. A eles foram dadas as casas onde os holandeses não queriam morar. Acreditavam que,depois de um tempo, esta mão de obra voltaria ao seu país de origem. Eles ficaram... excluídos, mais ficaram. Seus filhos se revoltaram.

Hoje, dizem que fazem de tudo pra integração destes grupos, por vezes acho que só dizem, como imigrante, sinto que a integração não é realmente levada muito a sério – mas, pra mim, o maior interessado na minha integração sou eu mesmo. Assim, temos hoje em dia, um lado dizendo que quer a integração dos imigrantes e de seus filhos, e no outro pessoas que não querem se integrar e que muitas vezes culpam os outros por todos os seus problemas.

Eu bem que tento compreender o lado destes imigrantes, deve mesmo ser difícil estar na segunda, ou terceira geração e ser ainda tratado como estrangeiro. Mas vindo de um país onde muitos não tem qualquer chance, fico por vezes revoltado com a revolta alheia, e o desperdício de oportunidades. As oportunidades são muitas e elas não são abraçadas por falta de motivação, parece não haver estímulos, seja dentro de casa, ou no convívio do dia a dia.
Como falei numa outra vez, aqui há as “escolas brancas” e as “escola pretas”, nas brancas estudam os filhos dos holandeses e nas pretas os filhos de imigrantes. Logicamente, o nível das escolas dos imigrantes é mais baixo que o das escolas do holandeses. A pergunta que eu sempre me faço é: por que os imigrantes não matriculam os filhos nas escolas de melhor qualidade, em vez de fazer questão de não se misturar, mesmo que pra isso tenham que pagar o preço de uma educação de pior qualidade pros próprios filhos?!?! Aqui é a Holanda, mas a educação também pode ser ruim por aqui.

A cada dia que passa eu tenho uma vida mais “a holandesa”, mas continuo brasileiro. E a cada dia que passa me sinto mais distante destes imigrantes, a ponto de, por vezes, preferir não me integrar com eles... chego a ignorá-los.

Acho que acabei de confessar de que também estou começando a os excluir socialmente...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Viva a desobediência


Jogo futebol desde muleque. Mesmo tendo treinado em vários lugares quando criança, considero que o que aprendi de melhor foi na rua. Onde jogava o dia todo. O conselho mais importante de todos veio de meu pai, ao ver que tinha emprestado o pé direito de meu tênis pra um amigo que chegara descalço pra pelada:

- Por que você emprestou seu seu tênis pra ele?
- É que ele chuta com a direita e eu com a esquerda, assim nós dois podemos chutar!
- Pois, calce seu tênis no pé direito e comece a chutar com ele também...

Desde que cheguei por aqui tenho treinado com uma equipe da terceira divisão amadora da Holanda. Com apenas duas divisões profissionais, é possível dizer que este é o quinto nível do futebol holandês, que mesmo regionalizado apresenta um nível técnico bastante bom.

O jogo por aqui, seja na primeira divisão profissional ou na terceira amadora, é uma correria. Quando um holandês assiste um jogo brasileiro ele diz que chega a ter sono, pois “jogamos em camera lenta”. A regra aqui é passar a bola. Não dar o terceiro toque é quase uma obrigação. Também há a questão relacionada a saúde: o terceiro toque na bola é muitas vezes acompanhado de um carrinho, principalmente quando estamos de costas pro marcador – que saudades dos campos secos e duros do Brasil inibidores de carrinhos dispensáveis. Não sou fominha, nem fazedor de truques, só que por vezes me encho de ficar jogando a dois toques e fico com a bola uns segundos a mais que o normal (por aqui). Sábado passado não tínhamos sequer jogado 30 minutos de uma partida amistosa quando meu treinador me sacou: “Você ia acabar machucado!”. Hoje posso reconher o quanto é difícil pra um jogador brasileiro se adaptar num outro país. Sinto isso a cada treino... acada jogo.

Por vezes fico frustrado por não jogar como eu gostaria. Sendo um pouco melhor seria ainda mais desobediente. Mandaria com mais frequência os dois toques pra'quele lugar (mas não posso negar que as vezes ele é muito importante e que aprendi bastante jogando por aqui). Ao ser questionado pelo treinador ou por meus colegas, por querer ficar com a bola, segundo eles, por tempo demais, poderia dizer: “futebol não é assim ou assado... futebol é bola na rede!”. Poderia deixar com maior frequência os zagueiros falando sozinhos. Meus tornozelos não sofreriam tanto... Infelizmente não sou melhor que sou, mas felizmente continuo desfrutando de correr atrás de uma bola (mesmo dando mais passes de primeira que gostaria), sem falar das intermináveis discussões e análises no bar do clube depois dos jogos, daquela dorzinha muscular do dia seguinte e de tudo que vive um boleiro amador.

Hoje percebo que meus conterrâneos que deram certo por aqui podiam fazer no jogo tudo aquilo que eu gostaria, eram desobedientes de boca cheia... o mais interessante é que vários dos melhores jogadores holandeses que conheço parecem não ter aprendido a jogar de acordo com as regras daqui. Por isso acho engraçada a idolatria por este modelo, por esta cartilha.
Hoje continuo vendo a Holanda como um país formador de muitos jogadores, mas acredito que eles só são o que são, pois são (ou foram) desobedientes e não seguem (ou seguiram) com frenquência as regras exigidas por aqui.


Gullit e Rijkaard: filhos de imigrantes. Cresceram jogando futebol nas ruas de Amsterdam. Local preferido: uma praça aqui perto de casa.

Seedorf e Davids: nascidos no Suriname, imigraram pra Holanda quando crianças, tenho certeza que as ruas e os Guetos daqui foram suas maiores escolas.

Cruijff: Maior nome da história do futebol Holandês, também crescido em Amsterdam. Afirma constantemente que as crianças devem jogar mais futebol na rua, pois na rua são feitos os jogadores. Se dispôs ano passado a liderar um grupo de trabalho pra tentar tirar o Ajax do limbo que o clube se encontra. Uma de suas grandes ambições era remodelar toda a escola de formação de jogadores do clube. Seu plano não foi aprovado pelo futuro treinador do Ajax, Van Basten.

Van Basten: Atual treinador da seleção. Pelas discussões que acompanhei sobre o caso envolvendo o Cruijff e Ajax, acho que ele segue a cartilha (Toda regra deve ter sua excessão). Mas talvez seja por isso que teve muitos problemas com vários jogadores da seleção (ou que fizeram parte dela): Seedorf, Davids, van Bommel, Nistelrooy, Kluivert...

sábado, 5 de abril de 2008

Já não havia mais tempo...


Minha passada na Noruega pra visitar meu irmão, me fez retornar aos meus primeiros dias por aqui, quando o holandês ainda era uma coisa do outro mundo. O norueguês, como o holandês, é um idioma no qual não compreendemos uma palavra sequer, no qual ouvimos sons que acreditávamos antes não existir (alguns fonemas holandeses não consigo pronunciar até hoje).
Foi engraçado ouvir as pessoas na rua e tentar imaginar sobre o que estavam falando, ou entrar novamente no mercado e ver que não era possível compreender as instruções de preparo de uma comida congelada... mas foi engraçado por ser passageiro e por saber que esta fase aqui na Holanda pra mim foi superada (fico desejando sorte ao meu irmão!). Atualmente, acho que eu e a Susanne conversamos mais em holandês que em português.
Infelizmente eu não fiz ainda um bom curso de holandês, ainda tenho problemas no trabalho, quando tenho que escrever documentos importantes, ou fazer um pequeno texto pra promover algumas das nossas atividades no jornal do bairro. Mas até agora venho levando tudo numa boa e sentindo ainda um bom desenvolvimento a cada dia.
Mas, acredito que mesmo se tivesse feito um bom curso, teria também os mesmos probleminhas vividos no dia a dia de quem aprende um novo idioma (sugiro a leitura de um outro texto meu: Bonequinha vermelha).

Como no português, por vezes, diferentes letras, quando pronunciadas, acabam tendo em determinadas situações um mesmo som. Como por exemplo: escrevemos leite, mas (com excessão de algumas regiões do Brasil) falamos leiti. A Susanne sempre ficava com a cabeça quent(i) quand(u) eu dizia: “olha... esta palavra é escrita com E e não com I”. Ou, “e esta é com O e não U”
Aqui também acontece disto... por exemplo: um T e um D, quando aparecem sem vogal na sequência, são pronunciados quase da mesma maneira. Só por referência, todos os verbos, quando conjugados na segunda e terceira pessoa do singular terminam ou com T ou com D mudos. Por um lado é sempre uma loucura: “devo escrever com T ou com D?” Mas por outro lado facilita... afinal na hora de falar não precisamos pensar muito.

Como no trabalho tenho muito contato com crianças, acabo sendo obrigado a melhorar meu holandês diariamente, pois eles, diferentemente dos adultos, sempre reagem aos meus erros. Muitas vezes até me ajudam. Se bem que já aconteceu de crianças tirando um sarro bem forte da minha maneira de falar, ou de alguns erros que cometia. O mais incrível é que isso acorre na grande maioria dos casos com filhos de imigrantes, os quais os pais que vivem aqui por muitos anos falam um holandês incrivelmente pior que o meu, ou sequer falar holandês.

Pois bem, outro dia estava conversando com um grupo que ia jogar um partida de futebol, na qual um deles deveria ser o árbitro. Antes de escolher um candidato, fiz um discurso sobre a maneira como o pequeno árbitro deveria se portar... foi aí que veio a pérola.
Árbitro aqui é: SCHEIDS. (não tentem pronunciar... não vai ficar sequer parecido, haha) Este D do final, por não ter uma vogal depois dele acaba tendo o som parecido com o T.
Pra construir um verbo a partir do substantivo colocamos aqui EN ao final da palavra.
Quando fui falar que o árbitro deveria “arbitrar seriamente”, sei lá por qual motivo me esqueci do S do SCHEIDS, adicionando apenas EN ao final da palavra. Com isso, aquele som em comum de D e T deixou de existir (o som em comum deveria se transformar em DEN ou TEN). Assim, tive que, numa fração de segundos, optar entre D e T ... veio a última.
A palavra pronunciada foi SCHEITEN, em vez de SCHEIDEN, que na verdade deveria ser SCHEIDSEN (se não tivesse me esquecido do S). E o que disse foi: “O árbrito vai ter que SCHEITEN com seriedade!”
Eu tentei me corrigir, mas já não havia mais tempo... a turma, uns 16 garotos de 8 a 12 anos, veio abaixo.

SCHEITEN em holandês significa cagar. Não é nem algo mais infantil e puro como fazer cocô, ou mais formal como defecar... eu disse mesmo é: “o árbitro vai ter que cagar com seriedade!”